Escola a ler Saramago - Leituras Centenárias | aLeR+2027
16 de novembro
43 turmas | 852 alunos | 43 professores
A celebração do centenário Saramago foi também contemplada no Plano de atividades da Rede de Bibliotecas de Vila Real e contou com o apoio do Pelouro da Educação do Município de Vila Real.
Alunos da ES Camilo Castelo Branco leem textos de Saramago
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Celebrar José Saramago | Leituras centenárias 2
16 de novembro
Vasco Miguel da Silva Petiz Varandas Guedes é o aluno que representou a ES Camilo Castelo Branco na leitura em linha do dia 16 de novembro, promovida pela Fundação José Saramago em parceria com a Rede de Bibliotecas Escolares e o Plano Nacional de Leitura.
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Podcast : Saramagueando
aLeR+2027
Celebrar José Saramago | Leituras centenárias Leitura de excertos do Memorial do Convento e d' O ano da morte de Ricardo Reis pelos alunos de 12º ano da ES Camilo Castelo Branco, Vila Real Iniciativa do Departamento de Línguas Românicas e Clássicas e da Biblioteca Escolar. #100saramago
Leitura coral do poema "Não posso adiar o amor", de António Ramos Rosa, pelos alunos do 7º C.
Não posso adiar o amor para outro século não posso ainda que o grito sufoque na garganta ainda que o ódio estale e crepite e arda sob montanhas cinzentas e montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço que é uma arma de dois gumes amor e ódio
Não posso adiar ainda que a noite pese séculos sobre as costas e a aurora indecisa demore não posso adiar para outro século a minha vida nem o meu amor nem o meu grito de libertação
que estava a chorar, pedi-lhe uma lágrima para a analisar.
Recolhi a lágrima com todo o cuidado num tubo de ensaio bem esterilizado.
Olhei-a de um lado, do outro e de frente: tinha um ar de gota muito transparente.
Mandei vir os ácidos, as bases e os sais, as drogas usadas em casos que tais.
Ensaiei a frio, experimentei ao lume, de todas as vezes deu-me o que é costume:
nem sinais de negro, nem vestígios de ódio. Água (quase tudo) e cloreto de sódio.
António Gedeão
Poema lido pelo João, do 7º A
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No Dia Mundial da Poesia, em Educação Especial, alunos do 8ºB, 9ºC e 9ºG leram o poema "Cantata da paz", de Sophia de Mello Breyner, acompanhados pelos docentes Benjamim Valadares e Margarida Lemos.
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Ana Afonso, do 11º D, lê "Cantata de paz", de Sophia de Mello Breyner .
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António Mourão, do 11º D, lê "Ser poeta é ser mais alto", de Florbela Espanca.
Para que ela tivesse um pescoço tão fino Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos Para que a sua espinha fosse tão direita E ela usasse a cabeça tão erguida Com uma tão simples claridade sobre a testa Foram necessárias sucessivas gerações de escravos De corpo dobrado e grossas mãos pacientes Servindo sucessivas gerações de príncipes Ainda um pouco toscos e grosseiros Ávidos cruéis e fraudulentos
Foi um imenso desperdiçar de gente Para que ela fosse aquela perfeição Solitária exilada sem destino
Não só quem nos odeia ou nos inveja Nos limita e oprime; quem nos ama Não menos nos limita. Que os deuses me concedam que, despido De afectos, tenha a fria liberdade Dos píncaros sem nada. Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada É livre; quem não tem, e não deseja, Homem, é igual aos deuses.
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Semana da leitura 2022
PNL2027 Rosário Alçada Araújo lê O Sábio que Sabia Tudo, de José de Lemos
PNL2027 / Gi da Conceição lê As Aves não têm Céu, de Ricardo Fonseca
já ninguém morre de amor, eu uma vez andei lá perto, estive mesmo quase, era um tempo de humores bem sacudidos, depressões sincopadas, bem graves, minha querida. mas afinal não morri, como se vê, ah não passava o tempo a ouvir deus e música de jazz, emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes, ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
a gente sopra e não atina, há um aperto no coração, uma tensão no clarinete e tão desgraçado o que senti, mas realmente, mas realmente eu nunca tive jeito, ah não, eu nunca tive queda para kamikaze, é tudo uma questão de swing, de swing minha querida, saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber, e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.
há ritmos na rua que vêm de casa em casa, ao acender das luzes. uma aqui, outra ali. mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha no lusco-fusco da canção parar à minha casa, o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente, minha querida, toda a gente do bairro, e então murmurarei, a ver fugir a escala do clarinete:- morrer ou não morrer, darling, ah, sim.
Vasco Graça Moura
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Podcast: Do livro para o ouvido
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Podcast: 10 Minutos a ler do 11º I
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Mulher, de Ary dos Santos
MULHER
A mulher não é só casa mulher-loiça, mulher-cama ela é também mulher-asa, mulher-força, mulher-chama
E é preciso dizer dessa antiga condição a mulher soube trazer a cabeça e o coração
Trouxe a fábrica ao seu lar e ordenado à cozinha e impôs a trabalhar a razão que sempre tinha
Trabalho não só de parto mas também de construção para um filho crescer farto para um filho crescer são
A posse vai-se acabar no tempo da liberdade o que importa é saber estar juntos em pé de igualdade
Desde que as coisas se tornem naquilo que a gente quer é igual dizer meu homem ou dizer minha mulher
Ary dos Santos
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Recordações do Futuro, de Siri Hustvedt
Leitura de um excerto pela professora Fernanda Botelho
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Podcast: Que nome lhe vamos dar?
Podcast do 10º F, realizado no âmbito do 10 Minutos a Ler
2021
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Podcast: Efeitos de Natal
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Um conto de Natal, de Miguel Torga
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Somente um dia de cada vez, texto de Patrícia Silva
Leitura de Patrícia Silva, 10º I
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Conto "O homem", de Miguel Torga
Conto lido por alunos do 7º F
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Regresso, de Miguel Torga Imagem: Wikiloc. S. Martinho da Anta: Na Senda de Miguel Torga 🔊
Rimance das sete meninas diferentes, de Carlos Alberto Silva
Havia sete meninas
Comendo sete romãs,
Todas sete tão diferentes,
Mas todas elas irmãs.
Uma loira, outra morena,
Outra da cor do limão,
Uma da cor da castanha,
Outra negra de carvão,
Uma rubra como o sol,
Outra parda como a lua,
Todas sete de mãos dadas,
Cantando as sete na rua:
- O que importa a cor da pele
Se é o amor que nos sustem?
Sendo as sete tão diferentes,
Nós sete nos queremos bem.
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Levava eu um jarrinho, de Fernando Pessoa
Levava eu um jarrinho
Levava eu um jarrinho
P’ra ir buscar vinho
Levava um tostão
P’ra comprar pão;
E levava uma fita
Para ir bonita.
Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro p’ra o chão,
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita...
Vejam que desdita!
Se eu não levasse um jarrinho,
Nem fosse buscar vinho,
Nem trouxesse uma fita
Para ir bonita,
Nem corresse atrás
De mim um rapaz
Para ver o que eu fazia,
Nada disto acontecia.
s.d.
Quadras ao Gosto Popular. Fernando Pessoa. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973).
- 118-119.
“Poemas para Lili”
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Tentei fugir da mancha mais escura, de David Mourão-Ferreira
Poema dito por Nuno Teixeira, 12º G | Imagem: Pixabay
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio. Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, gastámos as mão à força de as apertarmos, gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro! Era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes! e eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no tempo dos segredos, no tempo em que o teu corpo era um aquário, no tempo em que os meus olhos eram peixes verdes. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco, mas é verdade, uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras. Quando agora digo: meu amor..., já se não passa absolutamente nada. E no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração. Não temos já nada para dar. Dentro de ti não há nada que me peça água. O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
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Green God, de Eugénio de Andrade
Eugéio de Andrade por Eugénio de Andrade
Trazia consigo a graça
Das fontes quando anoitece.
Era um corpo como um rio
Em sereno desafio
Com as margem quando desce.
Andava como quem passa
Sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
Cresciam troncos dos braços
Quando os erguia no ar.
Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
O corpo que lhe tremia
Num ritmo que ele sabia
Que os deuses devem usar.
E seguia o seu caminho,
Porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
Enleado na melodia
De uma flauta que tocava.
Eugénio de Andrade, As Mãos e os Frutos
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A ordem do tempo, de Carlo Rovelli (extrato)
Leitura de um extrato de "A ordem do tempo", de Carlo Rovelli
Carlo Rovelli nasceu em Itália, em 1956. É físico teórico, professor universitário, investigador e autor de vários livros. Tem-se dedicado à gravidade quântica, mas também à história e à filosofia da ciência. Colabora com vários meios de comunicação social, incluindo o Corriere della Sera e o La Repubblica. Em 2019, foi incluído pela revista Foreign Policy numa lista dos 100 pensadores mais influentes do mundo.
Celebrar Torga por ocasião da evocação dos 25 anos da sua morte.
Leitura do conto "Farrusco", de Bichos. Aula de Matemática. Turma D, 8º ano.
FARRUSCO
Dentro da poça do Lenteiro, há rãs. Naquela água coberta de agriões e de juncos moram centenas delas. Mas à volta, na sebe de marmeleiros, silva-macha e alecrim, vive Farrusco, o melro. Sabe-se isso desde que, em certo entardecer de Agosto, a Clara perguntou ao cuco que se pousara num pinheiro em frente:
- Cuco do Minho, cuco da Beira: quantos anos me dás de solteira?
A rapariga era toda ela de se comer. E o cuco, maroto, olhou de lá, viu, e respondeu:
- Cucu... Cucu... Cucu...
Três anos! A moça ficou varada. O Rodrigo acabava a tropa de aí a dias, e prometera levá-la à igreja logo a seguir. Que significava, pois, semelhante demora? Aflita, chegou-se à Isaura, a alcoviteira, mouca como um soco, que a seu lado sachava milho, e gritou-lhe aos ouvidos, desesperada:
- Ora vê?! Que lhe dizia eu? A Isaura nem queria acreditar.
- Ouvirias mal!...
- Olhe lá que não ouvisse! Contei-os bem.
E foi então que Farrusco soltou a sua primeira gargalhada. Coisa bonita! Uma cascata de semicolcheias escaroladas, como se alguém rasgasse um pano cru, rijo e comprido, no silêncio da tarde serena, que o desânimo de Clara enchera subitamente de melancolia. Nada mais do que isso. Mas o bastante para mudar o sinal do desencanto. A força virgem daquele riso chamou a vida à consciência dos seus direitos. De parada, a natureza animou-se. Uma aragem muito branda e muito fresca atravessou o espaço. Tudo quanto era mundo vegetal ondulou levemente. A própria terra, sonolenta do calor do dia, acordou. £ de aí a segundos começou a maior sinfonia que se ouviu no Lenteiro.
Chamadas por aquela volatina, as rãs subiram à tona de água e puseram-se a dar força sonora às tímidas vozes ocultas e anónimas que se erguiam do limbo. Às rãs, juntaram-se logo, pressurosos, os ralos, as cegarregas, os grilos, e quanta arraia miúda tinha fala. A esta, a passarada. Até que não ficou bicho sensível e solidário alheio ao Tantum Ergo pagão. Um coro imenso, cósmico e fraterno, que enchia o mundo de confiança.
Clara, arrastada pela onda de harmonia, apelou da sentença:
- Cuco do Minho, cuco da Beira: quantos anos me dás de solteira? O que foste fazer! O malandro do pitoniso, se há pouco fora cruel, desta vez requintou.
- Cucu... Cucu... Cucu... Cucu...
Parecia uma ladainha! A lengalenga não parava mais. Ou de propósito, ou porque o mundo, naquele instante, era um orfeão aberto, o ladrão dava mais anos de solteira à rapariga do que estrelas tem o céu.
Desapontada, a cachopa regressou às ervas daninhas do lameiro. E, num amuo justificado, deixou correr as horas. A seu lado, comprometida, a Isaura, que tinha garantido o noivado a curto prazo, falava, falava, sem conseguir adoçar-lhe no espírito o fel da desilusão. E quando a noite se aproximou disposta a selar com negrura aquela tristeza humana, foi preciso que Farrusco, novamente solidário com os direitos da moça, saltasse da espessura da sebe para o cimo de um estacão, e fizesse ressoar pelo céu parado e quente uma segunda gargalhada. Discordância de tal maneira fresca, sadia, prometedora, que a rapariga ganhou ânimo. Pôs os olhos em si, na força criadora das margaridas abonadas, no ar de coisa sã que toda ela ressumava, e sorriu. Depois, confiante, juntou a sua alegria à alegria do melro. Soltou então também uma risada cristalina, que partiu da verdura do milhão, passou pelas penas luzidias de Farrusco, e foi bater como um castigo no ouvido desafinado do cuco. Um segundo a natureza esteve suspensa daquela gargalhada. A vida homenageava a vida. Depois continuou tudo a cantar.
- O estafermo do cuco, tia Isaura! Até um melro se riu!...
- Riem-se de tudo, esses diabos...
Mas o lusco-fusco começava a empoeirar o céu, e Farrusco ia fechando docemente os olhos, deitado na cama dura. A vida que lhe ensinara a mãe, simples, honesta, espartana, não lhe consentia luxos de noitadas. Pela manhã, ainda o sol vinha lá para Galegos, já ele tinha de estar de perna à vela, pronto para comer a bicharada da veiga, e rir de novo, se alguma tola de Vilar de Celas se fiasse outra vez no aldrabão do cuco.
TORGA, Miguel, "Farrusco". Bichos. Planeta de Agostini. 2003.
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