Cidades Futuras

 

 

NO MICROCOSMOS CITADINO É, NO FUNDO, O COSMOS QUE SE ESPELHA. PRECISAMOS, POR ISSO, DE ESCUTAR AS CIDADES

A

s cidades não se compreendem sem a pessoa humana, que é o seu centro e a sua razão de ser. É isso que, desde logo, nos diz a etimologia latina da palavra cidade que tanto pode ser uma evolução do termo civis, e neste caso seria uma referência à condição de cidadão, como pode derivar de cives, descrevendo, por metonímia, um aglomerado de habitações. Quer na descrição da cidade como espaço físico, quer na sua definição social e política, a pessoa humana representa a chave. E esse que é um requisito para a compreensão da origem do fenómeno urbano constitui certamente também uma premissa necessária para pensar o seu futuro. Na verdade, caminhar ao encontro das cidades futuras será necessariamente caminhar em direção a uma ideia de Humanidade.

A tipologia das cidades é muito heterogénea, desde os agregados recentes às cidades históricas, das pequenas urbes às grandes metrópoles da era global, que alguns chamam já de pantópolis, cidades totais. As cidades aumentam de número e de dimensão, mas em substância continuam a ser sobretudo uma rede de relações — humanas, políticas, económicas, espirituais, culturais — que se desenvolve num território determinado. Nesta linha, a sua configuração física é certamente importante, mas é apenas um dos aspetos. Não se compreende a cidade sem atender às conceções de vida e de mundo que ela plasma. A cidade constitui um laboratório cultural, de estilos e formas de existência, de línguas e dialetos, de identidades e transações, de modalidades de coabitação e conflito, de solidariedades e assimetrias, de sonhos e frustrações, de mimetismo global e de resistência vernacular. No microcosmos citadino é, no fundo, o cosmos que se espelha. Precisamos, por isso, de escutar as cidades. E, porventura, de aprender a escutá-las melhor.

 O ano de 2007 representa um marco simbólico e uma data a recordar pelos habitantes do planeta: pela primeira vez na história a população urbana superou a rural. E a partir de agora os números continuarão a aumentar a favor das cidades. Em 2010 os aglomerados urbanos representavam 51,3% da população mundial, mas calcula-se que em 2030 representem já os 60%. E não podemos esquecer que no início do século XX a população que vivia nas cidades constituía apenas 14% da população mundial, enquanto que no começo do século XXI havia já alcançado os 47%. E que em 1950 existiam apenas 83 cidades em todo o mundo com uma população superior a 1 milhão de habitantes. Contudo, em 2000 eram mais de 400. As cidades tornam-se cada vez mais difusas, como um mosaico de espaços, relações, experiências e percursos muito diferenciados. E são cada vez mais indispensáveis para pensar o futuro das sociedades.

Uma cidade é o lugar onde os seres humanos sonham, sofrem, amam, se abraçam e separam, aprendem e esperam, põem em prática a hospitalidade e o encontro, põem em marcha a luta pela sobrevivência, mas também a incessante luta pela sua dignidade. É o lugar onde se interrogam sobre o sentido da existência, o lugar onde contactam com o visível e o invisível, com o íntimo e o público, com o que é próprio e o que é de todos. O que está em causa nas cidades é afinal o mesmo: é o complexo e simples, torrencial e frágil, o contido e interminável pulsar da nossa humanidade. Não é de espantar, por isso, que os grandes desafios que hoje se colocam às cidades se prendam diretamente com a qualidade do viver humano. O poeta Carlos de Oliveira escreveu: “Cantar/ é empurrar o tempo ao encontro das cidades futuras.”

 José Tolentino Mendonça. Que coisa são as nuvens - Cidades Futuras in Expresso Semanário#2591, de 24 de junho de 2022

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