O sorriso de Agnès
QUEM NÃO FICAR COMOVIDO AO VER ESSE VÍDEO TALVEZ ESTEJA MORTO — MAS QUE SABEMOS NÓS SOBRE ISSO? SOBRE QUEM ESTÁ MESMO MORTO E QUEM ESTÁ MESMO VIVO?
I
À porta da igreja contamos sete degraus e vemos, ainda na rua, o caixão. Madeira clara em cima de uma mesa que suporta o peso de que todos temos medo, o peso do corpo morto de quem amamos — o peso mais pesado que existe, disse um dia um filósofo.
Um homem segura a fotografia da mulher assassinada — uma fotografia onde ela sorri largamente — e o companheiro da professora está em frente ao caixão. O carro funerário está também ali, ao lado, como algo que já deixou o seu temível produto no sítio certo e agora descansa, talvez apenas por momentos.
O viúvo, Stéphane Voirin, ali está, em frente à fotografia da sua mulher viva a sorrir e em frente ao caixão da sua mulher morta — e, sim, é impossível saber como estará o seu rosto, o de Agnès, lá dentro. Como está o rosto de um morto quando fechado dentro de um caixão? Podemos imaginar, mas não sabemos. Porque talvez depois de todos os cuidados fúnebres, que tentam colocar o rosto do morto na melhor das disposições possíveis, talvez o morto, quando finalmente fica sozinho, talvez aí ele decida — em autonomia, numa espécie de estranha decisão última mas que aparece depois do final —, talvez o morto decida, então, para onde vai o seu rosto, como ficará o seu rosto no absoluto fim.
Mas ninguém consegue ver lá para dentro, o que se sabe é o que se vê cá fora. E cá fora, em frente à igreja de Saint-Eugénie, ouvimos o som de alguns passos de algumas pessoas no meio do silêncio compacto que marca o funeral. Mas depois, subitamente, começam a ouvir-se sons, uma música. É a versão francesa de ‘L-O-V-E’, de Nat King Cole.
O viúvo, Stéphane Voirin, começa a dançar à frente do caixão, mas dança com as duas mãos afastadas do seu próprio corpo, por vezes parecendo claramente a rodearem outro corpo que já não está ali, o corpo da sua mulher, Agnès.
Ele dá passos afinados, para a direita, para a esquerda, ao som da música, rodopia, dança com controlo absoluto, levando com ela, nessa dança a dois, a imaginação do corpo da mulher amada. Os seus braços, afastados do corpo, parecem construir, em movimento, um corpo concreto — que quem conhecia Agnès poderia talvez dizer que era o exacto corpo da sua mulher, ou mesmo o verdadeiro corpo da sua mulher.
Por segundos, há algo que apavora e encanta ao mesmo tempo. O viúvo dança só, em frente ao caixão da sua mulher assassinada. Nesses segundos, a maior tristeza do mundo está naquela dança, uma dança a dois que agora só tem um — mesmo que o um coloque os braços de modo a que a sua mulher morta — a sua sombra, a sua imagem — ainda dance com ele, pela última vez.
Uns segundos de uma dança a dois sem um — mas logo a seguir vemos um casal, amigos de Agnès e do viúvo, Stéphane Voirin, a juntar-se àquela dança individual a dois, e depois outro casal ainda, e outro. E, assim, em poucos segundos vemos vários casais, na rua, em frente à igreja de Saint-Eugénie, em frente à fotografia sorridente da mulher assassinada, em frente ao caixão onde está o corpo da mulher assassinada, vemos vários casais a dançar, com a máxima alegria contida, a versão francesa de ‘L-O-V-E’, de Nat King Cole.
No plano da filmagem deixamos de ver o viúvo a dançar a dois, sozinho, e só vemos os vários casais — com o viúvo já atrás deles —, numa empatia que dança, a acompanharem aquele último estranho baile de um casal.
De novo, que sabemos nós sobre o rosto do morto que está dentro do caixão fechado? A ciência, a biologia e a lógica sabem certamente tanto, mas não o essencial.
Quando, ao som de ‘L-O-V-E’, de Nat King Cole, o seu viúvo e os seus amigos e familiares dançam, homenageando-a — dançam com ela, e para ela, e com ele, o viúvo —, naquele momento todos temos a certeza, uma certeza que ultrapassa a ciência e aparece vinda de outro campo, vinda da intuição humana, todos temos a certeza, então, de que o rosto de Agnès, agora fechada no caixão, mesmo que só por uns segundos, está claramente a sorrir; o último sorriso de Agnès.
Pode o momento de maior tristeza ser também o momento de maior alegria? Pode.
Gonçalo M. Tavares. "Os cadernos e os dias", in Expresso Revista, Semanário#269, de 17 de março de 2023
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