INTELECTUAIS E REVOLUCIONÁRIOS MUDARAM O MUNDO ESTIMULADOS PELO CAFÉ EM CAFÉS. HOJE, “OCUPAS DE LAPTOP” BEBERRICAM O SEU “ORGÂNICO” EM SILÊNCIO
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evido à morte do comendador Nabeiro falou-se muito da bebida café e até das nossas particularidades como portugueses no que toca ao consumo de cafeína. Não vou aqui discutir qual é a bebida — além da água — que mais se bebe no planeta. Sim, há um beef em relação ao tema. E é provável que seja o chá. Tal deve-se ao facto de a China e a Índia serem chazeiras, e só aí vai quase metade da população do planeta. Mas há uma parte — talvez a mais fascinante — que não foi homenageada (não tinha de ser) nestes dias: não de onde vem ou quem bebe, mas onde se bebe café. O que em Portugal, para criar alguma confusão neste texto, também se chama café, o local onde há umas mesas e se pode pedir uma bica (ou qualquer outro regionalismo) e ler um jornal ou juntar uns amigos à conversa; e onde — lembro-me bem — podíamos estar longas tardes sentados sem dizer/fazer grande coisa — extensos períodos de silêncio prostrado, conceito impossível de explicar hoje. Mas o que quero aqui realçar é o que devemos a esse locais. Neles nasceram ideais revolucionários, rebeliões, conceitos perigosos que derrubaram reis, déspotas e regimes; formaram-se ideias novas que iluminaram toda a Europa; filósofos, cientistas e escritores debateram e trocaram argumentos, uniram-se em “correntes de pensamento”, juntaram-se em utopias políticas tidas como perigosas para o statu quo, insultaram-se e esmurraram-se em cafés à volta do café, bebida que era tida como intelectualmente estimulante, que libertava as ideias e que, ao contrário do álcool, não entorpecia os sentidos. Aliás, “curava” ressacas. O café (bebida e local) sempre esteve ligado ao intelecto desafiador, à ciência, à escrita disruptiva do momento — os cafés com café sempre foram o espaço da celebração da política, muitas vezes na clandestinidade. Foi nos cafés e com café que se (des)concertou a Tomada da Bastilha ou onde Newton dissecou um golfinho para educar a plebe. Por toda a Europa, em mesas do canto, envoltas em tabaco e luz gordurosa, movimentos políticos e culturais ganharam forma — o café iluminava a mente. Era em dois cafés, a Brasileira e o Martinho da Arcada (com paragem numa taberna ou outra em “flagrante delitro”), que Pessoa se reunia com os seus heterónimos. Não há cidade deste país que não tenha (ou tenha tido) o seu café literário, onde os seus intelectuais se terão juntado e formado uma corrente cultural, congeminando uma resistência a ideias políticas carcomidas pelo caruncho, de Faro a Coimbra, ao Porto ou a Braga. Mas o café, ou a coffee house modernaça, mudou. E hoje é um local assético, banhado com uma luz quase de hospital — onde são disponibilizadas dezenas de possibilidades de café (quando de inspiração nórdica) — e liderado por um especialista (o barista), que tem um saber (a cultura do café — e tudo o que isso representa). Nas mesas, em vez de gente a conversar, ou de uma ou outra pessoa só a “passar tempo” (conceito extinto), há os chamados “ocupas de laptop”, com os seus portáteis ligados ao mundo e aquele arzinho e nariz empinados de nómadas digitais. Bem, o “vamos tomar um café?” ganhou múltiplas camadas semióticas, é certo. Mas o café, onde se podia mudar o mundo, inventado na Europa no século XVII, é hoje uma atração turística.
O consumo de café chegou de Constantinopla via Veneza (what else?) ainda no século XV e era a bebida dos sunitas, que os ajudava a manter-se acordados para rezar durante a noite. Para uma Europa de homens meio embriagados que evitavam beber água por causa das doenças, o café foi algo mágico. Teve o seu boom na Inglaterra, mas Carlos II, paranoico por os cafés serem antros de republicanos, tudo fez para acabar com eles. E fazia-lhe mais sentido beber chá, dado ter a Índia como pérola do Império. Os cafés “evoluíram” para os clubes de gentlemen, que ainda existem. Nos EUA, além de a questão dos impostos do chá introduzido pelos ingleses ter sido um evento que espoletou a independência, o aparecimento do café em pó fez com que este fosse levado pelos colonos e tornasse os EUA num país de café.
Mas é quando falamos da Europa que o café se torna mágico. Não há capital ou grande cidade que não tenha ainda o seu grande café, onde se reuniam escritores, intelectuais, jovens idealistas. De Madrid a Paris, de Viena a Berlim, todas estas cidades mantêm os seus cafés, onde ainda ecoa o debate de séculos, a troca de ideias speedadas pelo café. Cada cidade tem o seu café histórico, que exibe os seus troféus, de Kakfas a Sartres, de Hemingways a Joyces, de Fitzgeralds a Bretons, à grupeta Rousseau, Diderot, Voltaire, que nessa altura bebiam uma coisa pastosa e oleosa que se chamava café mas dava um estalo mental. Estes cafés são hoje locais turísticos. Discutir? Isso faz-se no Twitter. Os cafés tendem cada vez mais a ser um porto seguro para se interagir com o laptop ou o smartphone. Os cafés dos ideais até à morte, das grandes conspirações, desapareceram. Hoje, ninguém pode descartar que um daqueles seres concentrados a olhar para um ecrã não seja um guerreiro do teclado a salvar o mundo. Nunca o saberemos. Está ali pelo wi-fi de borla (e pelo café orgânico, claro) e porque, consta, gosta de algum barulho para se concentrar (há estudos). Afinal, ainda necessita de alguma humanidade para estar isolado. O local café, o antigo centro do mundo das ideias, já é só um ligeiro barulho de fundo abafado pelos fones.
Luís Pedro Nunes. O mito lógico, in Expresso Revista. Semanário#2631, 31 de março 2023
Café Majestic, Porto. Crédito Editorial: PhotoFires / Shutterstock.com
Só no início do século XIX começou o hábito dos portugueses tomarem o café nos estabelecimentos que hoje lhes dá nome. Antigamente, era por botequim que estes eram conhecidos e tinham o hábito de servir de tudo, menos o café. “O botequim era um espaço onde as pessoas se reuniam, mas não servia café. Não havia esse costume, porque as pessoas tomavam-no em casa. Era, essencialmente, um espaço de reunião de famílias, onde tomavam uma bebida e, mais tarde, um gelado, quando estes começaram a surgir”, contou o jornalista e historiador Germano Silva, numa entrevista publicada em 2016.
Segundo revelou, A Brasileira, um dos locais mais emblemáticos do Porto, chegou, inclusive, a oferecer café aos clientes durante algum tempo. “Ofereciam-no, na chávena, de graça, para criar esse hábito nas pessoas”. Um hábito que, recorda, só surgiu no início do século XIX, altura em que os cafés começaram a deixar o nome de botequins para se assumirem como “cafés”.
Cafés e botequins do Porto antigo - Viva Porto. (2021). Retrieved 11 April 2023, from https://viva-porto.pt/cafes-e-botequins-porto-antigo/
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