eBook | Metajornalismo
Quando o Jornalismo é sujeito do próprio discurso
Madalena Oliveira
2010 | Coimbra: Grácio Editor
Jornalismo e sonho de comunidade
Moisés de Lemos Martins*
O jornalismo tem como razão de ser o exercício da cidadania e a construção da memória pública, apenas se justificando como capacitação para uma prática mais sustentada de participação cívica. O jornalismo tem, assim, um vínculo declarado ao espaço público, que ajuda a construir, e com os valores que sustentam a ordem democrática, sendo esses valores a liberdade, a justiça social, a equidade e o bem público, valores de cidadania, em função dos quais é possível aferir a qualidade do ambiente simbólico de uma democracia.
Muitos são, no entanto, aqueles que hoje colocam em dúvida a capacidade do jornalismo para cumprir a sua razão de ser e realizar a sua tarefa. Há mesmo quem endosse ao jornalismo a responsabilidade pelos sentimentos de nostalgia, que se exprimem nas sociedades contemporâneas, por uma “mítica idade de ouro” da participação cívica, uma idade que se identificaria com os tempos iniciais e heroicos desta profissão.
O jornalismo é uma prática discursiva, que funda o espaço público alargado, não sendo possível dissociar experiência coletiva e discurso. Mas nos dias de hoje dificilmente a palavra é habitada por qualquer esperança, nada parecendo prometer, embora tenha sido no Ocidente fautora de civilização, e mais do que isso, dê forma ao nosso mito fundamental, um mito simultaneamente judaico-cristão e greco-latino, com o logos, que é palavra, a ser igualmente razão. O jornalismo vem destas origens e funda o espaço público como um espaço de palavra cívica: de comprometimento, e não de compromisso; de combatividade, e não de atonia; de desassossego crítico, e não de acomodação; de diversidade que afirme diferenças e se constitua tanto pelo consenso como pelo dissenso, e não de homogeneidade que aplane diferenças e tudo empape numa indistinção consensual.
Por outro lado, são conhecidas as fatais conivências do jornalismo com os poderes políticos e económicos, a ponto de se poder dizer que o jornalismo é uma prática que autoriza a apropriação do espaço público pelos Jornalismo e sonho de comunidade
Estas são as tutelas conhecidas do jornalismo e foram particularmente postas a nu por Karl Krauss, em Viena, no começo do século XX, como bem analisa Madalena Oliveira. Mas entretanto outras tutelas se lhes têm juntado. O jornalismo parece de facto fascinado pela “sensologia” (Perniola), uma maquinação emocional, na era das máquinas informáticas. Por essa razão, ouvimos falar agora de efervescência mediática e de estratégia euforizante dos media, com o efeito geral de um adormecimento cívico.
A dúvida sobre as reais capacidades do jornalismo para “adjuvar a cidadania” e para construir a memória da vida pública tem boas razões para se exprimir e subsistir. Mas também podemos colocar a hipótese contrária da conjugação de esforços entre o jornalismo, tal como foi constituído nos séculos XIX e XX, e as novas tecnologias da informação e comunicação, para modelar o espaço público, tendo em vista uma maior intervenção dos cidadãos na vida coletiva, com a profissão a ser disputada por novos atores, que emergem, por exemplo, nos blogues e nas redes sociais eletrónicas.
O propósito de Madalena Oliveira expresso neste livro é construtivista, com o jornalismo a ser encarado como uma prática de construção do real, ela própria construída socialmente. Pretende esta autora refundar o jornalismo no “metajornalismo”, uma categoria crítica, que refaz o jornalismo no pensamento. Esta proposta tem uma natureza política, no sentido que é dado à política por José Bragança de Miranda, de “resposta milenar a uma situação de perigo”. O metajornalismo traduz, com efeito, a injunção política de mergulharmos na imanência e de respondermos, aqui e agora, à situação de urgência do nosso confronto com as coisas que vemos e com os outros com quem temos que ver.
[PREFÁCIO]
* Investigador do Centro de Estudos Comunicação e Sociedade (CECS).

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