“ Os Lusíadas” - Exemplares raros em exposição
Camões nasceu há 500 anos e o Porto celebra a obra “profundamente moderna”: primeira edição e raros exemplares d“ Os Lusíadas” em exposição

Um raro exemplar da primeira edição d'Os Lusíadas', impressa em 1572
RUI DUARTE SILVA
RUI DUARTE SILVA
Ninguém pode bater o martelo e determinar com exatidão a data de nascimento de Luís Vaz de Camões, mas várias fontes sugerem que o poeta veio ao mundo a 23 de janeiro de 1524, há precisamente meio milénio. Para assinalar a efeméride, a Câmara do Porto expõe, entre esta quarta-feira e sábado [de 24 a 27 de janeiro de 2024], exemplares “monumentais” do poema épico, “obra transformadora” e ainda “profundamente moderna”
Este livrinho pequeno é, de facto, a jóia da coroa da biblioteca do Ateneu Comercial do Porto, com mais de 60 mil títulos”. Quem o diz é Rogério Gomes, presidente daquela associação, ao apontar para um dos 34 exemplares da primeira edição d“Os Lusíadas”, impressa em 1572 “com licença da Santa Inquisição”. “Chegou às nossas mãos em 1904, num leilão na Rua de Passos Manuel. Foi comprado por 170 mil réis (85 cêntimos), com a contribuição de um sócio que financiou 100 mil réis. A nós parece-nos pouco dinheiro, mas exigia algum esforço”, recorda o presidente da direção do Ateneu Comercial do Porto.
Esta raridade foi restaurada no final dos anos 1970 e, recentemente, um estudo da professora Rita Marnoto, da Universidade de Coimbra, concluiu tratar-se de uma edição pura. “Terá sido um dos primeiros livros a sair do prelo”, conta Rogério Gomes. Guardado e preservado no Ateneu Comercial do Porto, este exemplar vai agora ser mostrado ao público, juntamente com outras duas edições históricas da epopeia de Luís Vaz de Camões, para comemorar os 500 anos do nascimento do autor. A exposição, promovida pela Câmara Municipal do Porto, pode ser visitada durante quatro dias, entre esta quarta-feira e sábado, no Salão Nobre dos Paços do Concelho.

As comemorações à moda do Porto do meio milénio do nascimento de Luís Vaz de Camões incluem igualmente um projeto cultural comunitário liderado pelo escritor Gonçalo M. Tavares. “O projeto chama-se ‘Camões na Cidade do Porto’ e a ideia é filmar 1102 cidadãos, de diferentes zonas da cidade, dos 7 aos 87 anos, a ler as 1102 estrofes por ordem etária”, explica o autor de “Uma Viagem à Índia”, obra inspirada no poema épico camoniano.
Os vídeos com as leituras das 1102 estrofes ficarão, depois, disponíveis em QR Codes em mupis, espalhados por vários pontos da cidade. “A ideia é que haja um circuito. Vamos ter um mapa em que os dez cantos d‘ Os Lusíadas’ vão estar em dez cantos da cidade”, aclara Gonçalo M. Tavares. “Podemos percorrer ‘Os Lusíadas’ a pé. Um grande atleta, provavelmente, conseguirá percorrer num dia ‘Os Lusíadas’ na cidade do Porto”, atira o escritor e curador deste projeto.
A odisseia a pé para ouvir a leitura das 1102 estrofes d‘Os Lusíadas’ começará e terminará no Coliseu do Porto. “Julgo que não há cidade que possa receber melhor Luís Vaz de Camões do que o Porto”, assegura Miguel Guedes, presidente e diretor artístico da emblemática sala de espetáculos da Invicta.
André Manuel Correia (texto) e Rui Duarte Silva (fotografia). E-Revista, Expresso, 23 de janeiro de 2024
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