Sarah Afonso
Eva, número 398, 26 de novembro de 1932
Será a primeira mulher a frequentar o café A Brasileira, no Chiado, então reservado apenas a homens. Aluna de Columbano, que influencia o tema das suas obras iniciais, dedicadas ao retrato, e com as inevitáveis passagens por Paris, onde chegará a colaborar com a pintora Sonia Delaunay e, simultaneamente, num ateliê de alta costura. Nunca terá sucesso público com a sua pintura e acentuando a sua já longa dedicação à costura, ao bordado e à decoração de ambientes domésticos, Sarah Affonso (Lisboa, 1899-Lisboa, 1983) imprimirá as premissas do movimento modernista, explorando a iconografia religiosa popular oriunda do Minho (onde viveu grande parte da infância e juventude) com os seus presépios, procissões e oratórios de culto às almas do purgatório, as célebres alminhas. O relevo dado à tradição rural portuguesa fica refletido, não só na sua obra de pintura, mas também na ilustração, muitas vezes em traço rápido, roçando o naïf. Registo que também aplicará em inteligentes bicromias nas capas da revista semanal Eva, entre 1931 e 34.
Destacam-se pela sua frescura e ingenuidade gráfica cinco ilustrações para capa de Sarah Affonso [...]. As mulheres imaginárias que protagonizam estas capas, entre a sofisticação dernier cri dos ditames da moda parisiense, ou os ecos da vida campestre, manifestam um óbvio empoderamento feminino [...]. Juntamente com outras revistas, como a Modas & Bordados, Femina e Portugal Feminino, a Eva integra uma frente importante de afirmação e emancipação das mulheres portuguesas, mesmo quando os seus conteúdos textuais e gráficos parecem estar subordinados às chamadas «prendas femininas». Na verdade, as correntes modernistas que se sucedem a partir de meados dos anos 10 do século passado têm no seu programa estético as artes decorativas e os costumes de raiz rural. Apesar das contingências da sua educação escolar e familiar, e do expetável papel que a sociedade patriarcal lhes reserva, muitas mulheres conseguem afirmar uma carreira como ilustradoras editoriais, realizar uma obra inspirada nas vanguardas dos movimentos estéticos e lutar por um papel igualitário na sociedade do seu tempo.
Os desenhos de Sarah na revista «Eva» enquadram-se facilmente na apreciação que críticos e historiadores de arte colam à sua obra total. Dirá Diogo de Macedo: «Sarah Affonso não vê a vida senão pelo lado infantil, pelo mais puro, pelo mais ingénuo. A sua arte é alegre, sem sombras, sem dostoievskismos assustadores.» Sarah fará ainda duas outras capas para a Eva sem figuração feminina evidente. Uma cesta com flores no número 364 de 30 de abril de 1932, e a última de todas, publicada a 17 de março de 1934. Duas mãos, femininas, seguram duas pombas, simbolismo recorrente na sua obra gráfica. Neste mesmo ano, Sarah Affonso vai casar com Almada Negreiros. O percurso artístico como pintora e ilustradora vai extinguir-se gradualmente. Desfazendo a impressão generalizada de que Almada teria anulado a sua carreira, de que até o próprio pintor se penitenciava, Sarah dirá mais tarde que a apatia do público e da crítica e a ausência de encomendas é que a afastaram irremediavelmente dos pincéis e das telas. Só muito mais tarde, a partir de 1955, o seu trabalho de ilustradora voltará a ser impresso, em contos avulsos da revista Menina e Moça e, em 1958, no livro de Sophia de Mello Breyner Andresen A menina do mar.
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