Todos conhecem Camilo, ninguém conhece Jorge

 



FERNANDO VELUDO / NFACTOS (EXCLU

Foi aberta a pasta vermelha que, desde 1885, guarda a criação artística de Jorge, o “amado filho louco” de Camilo Castelo Branco e Ana Plácido. Com ela, abre-se uma outra porta para a vida e obra do escritor do qual se celebra em 2025 o bicentenário. Cem desenhos estão em exposição no Centro de Estudos Camilianos, em São Miguel de Seide, a última morada da família

Para ver-te chorar, ó mãe do filho amado,
Que vê, como num sonho, a cena do trespasse...
- Sorver-lhe o eterno abismo o pai idolatrado.
Talvez que ele, a sonhar, te diga: “Mãe não chore
Que o pai há-de voltar...” Quem sabe se virei?
Quando a Acácia do Jorge ainda outra vez enflore,
Chamai-me, que eu de abril nas auras voltarei.

Dos versos de Camilo, publicados em Bohemia do Espírito (1882), oito anos antes de o peso da vida e da doença lhe premirem o gatilho, escapa a premonição. Camilo não voltaria e a acácia não mais dará flor. Os ramos da Robinia pseudoacacia que o primogénito de Camilo Castelo Branco e Ana Plácido plantou aos oito anos acompanhavam a escadaria da casa da família, em São Miguel de Seide. A localidade de Vila Nova de Famalicão seria a última morada da famíliadesde a sua mudança a partir de Coimbra, em 1863, até às mortes de Camilo e Ana, em1890 e 1895, e dos seus filhos Nuno e Jorge, respetivamente um e cinco anos depois da morte da mãe.

A escassos meses da celebração do bicentenário do grande escritor do romantismoa acácia, já doente e em risco de queda, foi derrubada durante uma “intervenção desajustada e não autorizada” por parte dos serviços municipais de Vila Nova de Famalicão (o que levou à abertura de um inquérito interno pela Câmara Municipal)A autarquia estaria, desde o primeiro semestre de 2024, a planear um projeto de valorização da árvore que, além de monumento natural, era património querido dos seidenses e, como cunha a lírica do seu pai, testemunho da vida de Jorge Camilo Plácido Castelo Branco.

Durante o Congresso Internacional “Camilo Castelo Branco, 200 anos depois”, que se realizou até 16 de março (data do seu nascimento) no Centro de Estudos Camilianos, em frente à Casa-Museuo presidente da câmara famalicense anunciou o processo de alargamento da área protegida em torno da casa de Camilo para Zona Especial de Proteção, que já terá recebido parecer favorável da CCDR-Norte e aguarda validação da Direção-Geral do Património Cultural.

Em ano de celebração redonda, o Centro de Estudos apresenta os resultados de uma investigação que, a partir de 2018, abriu a pasta onde Camilo Castelo Branco conservou cerca de 300 desenhos do filho. Cerca de 80 dos exemplares fazem parte da exposição “JORGE. Desenhos do meu filho”, patente até 31 de agosto.


“Dezenhos de meu filho Jorge Castello Branco 1885”, lê-se, pela letra de Camilo Castelo Branco, a pasta onde colecionou os 300 desenhos do filho
“Dezenhos de meu filho Jorge Castello Branco 1885”, lê-se, pela letra de Camilo Castelo Branco, a pasta onde colecionou os 300 desenhos do filho
FERNANDO VELUDO / NFACTOS

Abriu-se a pasta vermelha

Os desenhos podiam ter sofrido destino fatal semelhante à robíniaEm 1915, a casa da família (construída em 1830 por ordem de Pinheiro Alves, primeiro marido de Ana Plácido) foi totalmente consumida por um incêndio. Dois anos depois, formou-se uma Comissão de Homenagem a Camilo Castelo Branco que a adquiriu, restaurou e doou à autarquia famalicense. Em 1922 abriu o Museu Camiliano, que é hoje Casa-Museu de Camilo.

No trabalho de recuperação fiel à casa que a família de Camilo terá habitadoa comissão recolheu mobiliário e objetos dispersos por amigos e família alargada. Entre eles, uma pasta de couro vermelho com etiqueta da mão de Camilo: “Dezenhos de meu filho Jorge Castello Branco 1885. Estava na posse de Alberto Pimentel (falecido em 1925), amigo de longa data e considerado o primeiro biógrafo do autor.

No itinerário pela exposição, paramos junto do retrato do escritor portuense, num bloco de quatro molduras com outros amigos da família: José Joaquim de Sena Freitas, Francisco Carvalho e Custódio José Vieira. “Camilo recolhe os desenhos e é o próprio Jorge que pega na capa e a oferece a Alberto Pimentel. Se tivesse ficado na casa, hoje não teríamos desenhos”, repara Elzira Sá Queiroga, técnica superior do Centro de Estudos Camilianos. A investigadora explica que os retratos foram identificados pelas fotografias do álbum de família, cuja réplica está na exposição, juntamente com a flauta de Jorge e a pasta vermelha.

Haverá mais desenhos além da coleção dos 300. “Olho para Camilo como se fosse um colecionador do próprio filho” reflete Elzira Sá Queiroga. “Há uma seleção que merece estar nas paredes da casa, outra que merece ser oferecida aos amigos, e a outra que ele guarda na pasta. Sérgio Guimarães de Sousa, coordenador científico do Centro de Estudos Camilianos, acrescenta: “Camilo já era um curador”.

Enquanto o pai escreve no escritório, Jorge desenha sobretudo aquilo que vê. A casa, a família (embora não figure, na coleção, nenhum retrato da mãe), as caricaturas dos periódicos (principalmente as de Sebastião Sanhudo e de Rafael Bordalo Pinheiro) que circulam pela casa (O SorveteOccidente, Porto CómicoAntónio Maria) e as personagens das obras do pai – em cujas páginas também rascunha, apesar de a maioria dos desenhos se encontrar em folhas soltas. Na exposição está uma edição rabiscada de Herança de Lágrimas, de Ana Plácido. Estes materiais, bem como a correspondência de Camilo, foram a base da investigação.

Não tendo formação artística, o traçado de Jorge evolui com a repetição e a cópia das caricaturas, embora haja alguns desenhos originais.Jorge estava num ambiente bastante criativo: o pai escrevia, a mãe escrevia e tocava piano, Nuno tocava umas guitarradasEle tocava flauta e fez algumas coisas escritas, mas tinha dificuldade nisso, então participava da veia criativa da família com o desenho”, descreve Elzira Sá Queiroga. “Era o seu lugar feliz”.

Retrato de Jorge (à direita) e Nuno Castelo Branco (à esquerda), nascidos em 1863 e 1864, na Casa-Museu de Camilo
Retrato de Jorge (à direita) e Nuno Castelo Branco (à esquerda), nascidos em 1863 e 1864, na Casa-Museu de Camilo
FERNANDO VELUDO / NFACTOS

A arte o que é da arte, à loucura o que é da loucura

Sabe-se pouco sobre Jorge, primeiro fruto do amor proibido de Camilo e Ana, que plantou a robínia e que, mesmo em adulto, “empoleirava-se em seus galhos para tranquilizar-se com a sua flauta e dali via os dias passar”, escreve Stefanie Gil Franco, curadora da exposição, no catálogo homónimo que a acompanha e no qual podemos encontrar a réplica dos 300 desenhos.

“Toda a informação que encontrava é que ele era o 'amado filho louco' de Camilo e Ana Plácido, mais nada além disso. Todo o mundo conhece Camilo, mas ninguém conhece Jorge”, comenta a investigadora, “e muito menos Nuno -nascido um ano depois de Jorge seis depois de Manuel, filho de Ana Plácido com Pinheiro Alvesque alguns autores apontam que será também filho de Camilo, embora o próprio nunca o tenha assumido como tal.

Atualmente investigadora de pós-doutoramento do Programa de Desenvolvimento Humano Integral da Universidade Católica Portuguesa e investigadora do Centro de Estudos de Comunicação e Cultura da mesma instituição, Stefanie Gil Franco especializa-se no estudo da interceção entre arte e loucura, no qual mergulhou durante o mestrado, ainda no Brasil. “Durante o século XX, a doença mental vai sendo reconfigurada praticamente a cada década, com outras classificações e compreensões medico-psiquiátricas, mas também sociais”, reflete a curadora. A doença mental é uma questão psiquiátrica, a loucura é uma questão social – que encontramos na poesia, na música, no teatro, na arte como um todo. A loucura possibilita pensar de forma muito mais ampla a própria doença mental”.

Uma das compreensões da época era que a doença mental era predefinida tanto pela hereditariedade como pelo grau de moralidade da ascendência. Alberto Pimentel Filho escreve em 1898: “Jorge Castelo Branco é filho adulterino e gerado em condições morais muito irregulares. Sempre foi um fraco...” Em carta a Tomás Ribeiro, Camilo escreve: “esta herança de demência... é uma fatalidade. Ambos os meus filhos tiveram quinhão atávico do avô. Sabes que meu pai morreu doido e minha avó, e duas tias minhas e meu tio Simão, o do Amor de Perdição, doido era também”.


“O meu querido doudo lembra-se de ti quando o aguilhoam as aptidoens artisticas amalgamadas no turbilhão de trevas que lhe vai na alma”, escreve Camilo Castelo Branco ao amigo Tomás Ribeiro, que terá recebido de Jorge um desenho do Barão do Rabaçal, personagem de Eusébio Macário
“O meu querido doudo lembra-se de ti quando o aguilhoam as aptidoens artisticas amalgamadas no turbilhão de trevas que lhe vai na alma”, escreve Camilo Castelo Branco ao amigo Tomás Ribeiro, que terá recebido de Jorge um desenho do Barão do Rabaçal, personagem de Eusébio Macário
FERNANDO VELUDO / NFACTOS

Stefanie Gil Franco era doutoranda de História da Arte na Universidade Nova de Lisboa quando a orientadora, Raquel Henriques da Silva, lhe falou dos desenhos do primeiro filho de Camilo - a ela enviados pelo anterior coordenador científico do Centro de Estudos Camilianos, José Manuel Oliveira – e mais tarde desafiou para a curadoria da exposição. “Sabias que ele era louco?” Recorda com humor a pergunta da historiadora de arte. “Tornei-me nesta espécie de referência sobre a loucura”, desabafa.

Qualquer menção à prática artística de Jorge – que as investigadoras garantem ser incentivada pelo pai e mencionada regularmente aos amigos, na sua correspondência - vem sempre acompanhada de referências à sua “alienação mental”, classificação psiquiátrica comum na época, repara Stefanie Gil FrancoHoje, do ponto de vista da patologia, o Jorge poderia ter sido muita coisa ou nada”.

No processo de descoberta da arte e da loucura de Jorge, a investigadora fez por separar a relação consequencial entre elas por considerá-la “anacrónica e pouco produtiva”. “Quis desvincular a ideia de um génio artístico - que associa ao romantismo e ao parnasianismo, “aquela devoção tão grande à arte em que o artista era [por ela] dominado e possuído” - que vem de um grupo de médicos do século XIX que relacionavam o momento da catarse criativa do artista com um ataque epilético”, indica Stefanie Gil Franco.

Se olharmos para os desenhos de Jorge, nós não vemos nada de loucura, e também não há nada de genialidade”, admite a curadora. “Aquilo é um treino, são coisas técnicas, e, dentro disso, desenhos com qualidades incríveis”. Talvez pela justificação dada de que a loucura de um filho era herança malvada da família, também houve quem estabelecesse a ligação da genialidade literária de Camilo à arte de Jorge. Ricardo Jorge, que acompanhou o seu processo médicoescreveu de Jorge que, “a despeito da desordem psicopática, não escapou ao horóscopo do pai, saiu rabiscador”.

Elzira Sá Queiroga sublinha o carinho desmesurado” de Camilo por este filho e repara que não havia o comportamento “que seria muito habitual no século XIX de isolar o filho problemático; os amigos vêm à casa e os pais chamam Jorge para os cumprimentar”. Ele oferece-lhes desenhos, o pai escreve-lhes sobre os progressos no traçado desta ou daquela personagem.

“O meu querido doudo lembra-se de ti quando o aguilhoam as aptidoens artisticas amalgamadas no turbilhão de trevas que lhe vai na alma”, escreve Camilo Castelo Branco ao amigo Tomás Ribeiro, que terá recebido de Jorge um desenho do Barão do Rabaçal, personagem de Eusébio MacárioCamilo terá reconhecido naqueles desenhos o último sopro da sanidade do filho.


“JORGE. Desenhos do meu filho” está em exposição no Centro de Estudos Camilianos, em São Miguel de Seide, até 31 de agosto
“JORGE. Desenhos do meu filho” está em exposição no Centro de Estudos Camilianos, em São Miguel de Seide, até 31 de agosto
FERNANDO VELUDO / NFACTOS


"Há sempre Camilo por descobrir"

A maior parte em grafite, poucos a tinta, lápis vermelho e azul e guache, personagens do século XIX passeiam pelo espaço de exposição minimalista do Centro de Estudos Camilianos. Fontes Pereira de Melo, representado amiúde por Bordalo, aparece em várias molduras. Numa representação de um cortejo religioso, o arcebispo primaz de Braga. Num cenário de bar, Maria, mulher do Zé Povinho, que vemos encontramos noutros desenhos.Também Ernesto Chardon, fundador da Lello, a editora de Camilo.

Entre cenários bélicos e até sádicos, surge Pinheiro Alves, comerciante do Porto e primeiro marido de Ana Plácido, com uma espada grande. “Ao lado deletemos Camilo, mais estreitinho, que com uma pequena lança fere Pinheiro Alves na barriga”, descreve Elzira Sá Queiroga. Os olhos e a boca são elementos em que Jorge trabalha com muita expressividade, enquanto as mãos são elemento problemático - “as personagens surgem muitas vezes a envergar paus ou guarda-chuvas".

A maior parte das obras não está datada, mas podem ser definidas duas balizas: o desenho de 1869, que Camilo legend(“este foi o primeiro desenho que o meu filho fez, tinha seis anos”), e a data escrita na pasta, 1885, um ano antes de Jorge ter sido internado no Hospital Conde FerreiraAs investigadoras travaram a investigação nesse momento da história. Embora Stefanie e Elzira admitam que Jorge possa ter continuado a desenhar “para sua própria lucidez”, o agravamento da doença na idade adulta deixa adivinhar que a sua criação artística terá ficado para trás.

Em 1886, Camilo escreve a Carlos Ramiro Coutinho, visconde de Ouguela e amigo de infância do escritor: “batia nos criados, mas respeitava a mãe a mim. Nela já deu alguns murros, e estou esperando o meu quinhão. Vejo-me forçado a recolhê-lo ao hospital do conde de Ferreira”. Mais à frente, prossegue: “Já me ameaçou e desafiou para a rua, e eu abracei-me nele a chorar. A entrada para o hospital equivale a entrar na sepultura. Mas não sei de outro expediente. Receio que ele mate a mãe que ele hoje odeia tanto quanto amava dantes. A mim, se me matasse, obsequiava-me”.

O comportamento agressivo só piorou depois da alta e Jorge já não volta a viver com os pais, saltando entre pensões em Vila Nova de Famalicão, e, com a morte dos pais, volta a São Miguel de Seide para viver com o irmão Nuno (na casa que agora é a junta de freguesia, a escassa distância da Casa de Camilo), a sua segunda esposa, Ana Correia, e os seus seis filhos. É Ana quem acompanha e cuida de Jorge até ao seu último dia de vida.

“JORGE. Desenhos do meu filho” abre uma nova porta para a compreensão de Camilo Castelo Branco e da sua família (a sua própria novela camiliana) pelo traçado autodidata do seu “pobre e formoso louco”, como o próprio descreveu. O coordenador científico do Centro de Estudos Camilianos pondera que, mesmo passados dois séculos, “há sempre Camilo por descobrirEm todas as escolas que imitou, foi sempre irredutivelmente singular. Dá reviravoltas, manipula o leitor, é genial nessa capacidade. E completamente indisciplinado; a genialidade dele passa por aí”.


Inês Loureiro Pinto. E-Revista Expresso, 17 de março de 2025


Camilo 200

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