A promoção da leitura é uma urgência nacional

 

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Se não atuarmos cedo, as dificuldades de leitura consolidam-se e transformam-se em limitações na fase adulta

No início de novembro foram conhecidos os resultados do “Relatório Nacional do Diagnóstico da Fluência Leitora 2025” (Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação), que envolveu mais de 90 mil alunos do 2º ano, de escolas públicas e privadas.

Este levantamento revelou que um quarto dos alunos do 2.º ano lê, no máximo, 51 palavras por minuto, sendo a média nacional de 75 palavras por minuto, dentro do intervalo indicado para esta idade. A dispersão de resultados é considerável, evidenciando desigualdades precoces e revelando que, ainda antes de chegar ao 3º ano, muitas crianças já acumulam fragilidades que podem comprometer a sua capacidade de compreensão genérica, o seu percurso escolar e até a sua integração social.

A leitura é mais do que uma competência académica — é a base da aprendizagem, é instrumental para se fazer entender e compreender os outros e é condição para uma participação informada, crítica e, portanto, plena, em sociedade. Países que investem em políticas estáveis e consistentes de promoção da leitura desde a infância apresentam maiores índices de literacia e maior potencial de mobilidade social.

Recentemente, também ficamos a conhecer as conclusões do estudo da OCDE, “Education at a Glance 2025”. Uma delas é que quase metade (46%) dos portugueses entre os 25 e os 64 anos apenas consegue compreender textos curtos, o que coloca Portugal no segundo lugar, entre 30 países, com o nível mais baixo de proficiência em literacia.


Promover a leitura significa também enfrentar a concorrência das redes sociais e do streaming aditivo e inverter o tempo de atenção diminuído.


Dito de forma clara: se não atuarmos cedo, as dificuldades de leitura que se registam nos alunos do 2º ano, consolidam-se e transformam-se em limitações na fase adulta, com impacto individual, mas também coletivo, refletindo-se na sociedade que coconstruímos e partilhamos. Portugal não deve ignorar esta evidência.

Como, então, inverter este cenário?

A família tem, certamente, um papel decisivo: ler para as crianças, criar momentos de leitura partilhada, mostrar que os livros são aliados e não obrigações. Mas, e de acordo com um inquérito da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), dois terços dos portugueses que se identificam como não leitores e que têm filhos ou netos não têm o hábito de ler com eles, perpetuando o ciclo de baixa literacia.

Por isso, a complementaridade entre escola e família é crucial. E é aqui que entram as bibliotecas escolares, como centros ativos de promoção da leitura, onde se dinamizam clubes, debates, oficinas de escrita, projetos digitais e se ensinam várias literacias. O professor bibliotecário, que complementa o trabalho curricular, cria oportunidades para descobrir géneros literários e autores, e transforma a leitura numa experiência de prazer e descoberta. Quando as bibliotecas são bem dinamizadas, os resultados são visíveis: mais leitores, mais curiosidade, maior sucesso escolar.

Hoje, promover a leitura significa também enfrentar a concorrência das redes sociais e do streaming aditivo, e inverter o tempo de atenção diminuído. Não se trata de inibir o mundo digital, mas de encontrar oportunidade de sã convivência com o livro (em papel ou digital). De redescobrir o prazer da história, o gozo de encontrar a palavra certa para dar nome ao que se sente ou vive, o espaço para imaginar o que se lê sem se ver, o diálogo que ocorre dentro de nós quando deixamos ecoar o que lemos.

Face ao que já sabíamos por via dos resultados do PISA (programa internacional de avaliação de alunos) e do PIRLS (Progress in International Reading Literacy Study), aos quais agora já juntam as conclusões do “Diagnóstico da Fluência Leitora” e do “Education at a Glance”, parece urgente revitalizar uma estratégia para a leitura, que envolva escolas, famílias, autarquias, o sector editorial e os autores. Campanhas de incentivo à leitura e aquisição de livros, valorização das bibliotecas escolares, reavaliação das leituras obrigatórias no curriculum escolar, são passos seguros.

Viramos a página?
Ana Rita Bessa. Promoção da leitura é uma urgência nacional. Expresso, 4 de dezembro de 2025

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