1935, o ano em que Fernando Pessoa se tornou imortal

 





“Retrato de Fernando Pessoa”, de Almada Negreiros Nuno Botelho



O fim da sua existência na Terra, em 30 de novembro de 1935, foi o princípio da imortalidade que o reconheceria entre os maiores poetas do mundo. Olhamos para as suas posições — insólitas, contraditórias e efémeras — sobre o Estado Novo ou a Maçonaria

Envelhecera bastante devido ao consumo excessivo de bebidas alcoólicas. Apesar disto, não lhe faltou a lucidez e a capacidade para arrumar os papéis desordenadamente acumulados dentro de uma arca e que vão constituir a imagem que o irá consagrar na posteridade. Seria o pressentimento da morte? Como encarava a morte? “A morte chega cedo,/ Pois breve é toda vida/ O instante é o arremedo/ De uma coisa perdida./ O amor foi começado,/ O ideal não acabou/ E quem tenha alcançado/ Não sabe o que alcançou./ E tudo isto a morte/ Risca por não estar certo/ No caderno da sorte/ Que Deus deixou aberto.”

Nos 400 anos do nascimento de Camões, Pessoa introduziu, num jornal, esta observação sibilina: “A epopeia que Camões escreveu pede que aguardemos a epopeia que ele não pôde escrever”

Prosseguia, inalteravelmente, a rotina quotidiana. Continuava, desde 1920, a residir em Campo de Ourique, no primeiro andar direito do número 16 da Rua Coelho da Rocha. Fernando Pessoa utilizava o elétrico para se deslocar todos os dias à Baixa, ao Terreiro do Paço, ao Campo das Cebolas, ao Largo de São Paulo e ao Cais do Sodré, para trabalhar nos escritórios onde era tradutor de correspondência comercial em inglês e em francês; para comprar jornais e revistas, a fim de estar informado do que se passava no país e no resto do mundo; para se dirigir aos cafés e restaurantes, onde almoçava, jantava e se encontrava com um grupo restrito de amigos.

No fim de 1934 e no início de 1935, o nome de Fernando Pessoa foi divulgado em todos os jornais. Resolveu publicar na data simbólica de 1 de dezembro de 1934 o primeiro livro de versos, em língua portuguesa. A princípio chamava-se Portugal, mas optou, depois, pelo título Mensagem. Constitui uma exaltação da História de Portugal, através dos seus principais protagonistas; o reconhecimento universal das descobertas marítimas portuguesas; e uma revisitação aos símbolos e aos mitos associados a pressentimentos e visões proféticas relativas ao presente e ao futuro. Fazia parte de um projeto antigo de Fernando Pessoa. Em 1924, durante as comemorações do quarto centenário do nascimento de Camões, introduziu, num artigo de jornal acerca da efeméride, esta observação sibilina: “A epopeia que Camões escreveu pede que aguardemos a epopeia que ele não pôde escrever.”

A Mensagem receberá o Prémio Literário Antero de Quental, instaurado, em 1934, pelo Secretariado Nacional da Propaganda, dirigido por António Ferro, o mais ativo propagandista em Portugal e no estrangeiro do salazarismo e dos seus principais protagonistas. O livro de Fernando Pessoa, repleto de forte carga nacionalista, vai ser aproveitado para fundamentar muitos aspetos da ideologia do Estado Novo, a “política do espírito” concebida por António Ferro.

Pessoa, numa das várias declarações que fez, confessou: “Não foi feliz a estreia, que de mim mesmo fiz, com a publicação da ‘Mensagem’. (...), mas foi a melhor estreia que eu podia fazer. (...) Coincidiu, sem que eu o planeasse ou premeditasse, com um dos momentos críticos da remodelação do subconsciente nacional.” O crítico literário José Osório de Oliveira também assinalou que a Mensagem “teve a pior sorte que, em Portugal, pode ter uma obra literária; servir de bandeira política”.

Em face de tudo isto, a oposição republicana, socialista e comunista, até aos anos 50/60, rotulava Fernando Pessoa de poeta fascista. Tanto mais que, em 1928, numa edição do Núcleo de Ação Nacional, publicou uma extensa “Defesa e Justificação da Ditadura Militar”. Dois anos antes, em 1926, outro intelectual de evidência, Fidelino de Figueiredo, também lançara um livro sobre “O Pensamento Político do Exército”.

Posições políticas

As posições políticas que Fernando Pessoa assumiu ao longo da vida foram sempre insólitas, contraditórias e efémeras. Radicado em Portugal desde 1905, nos últimos anos da monarquia — o período escaldante da ditadura de João Franco, que vai culminar no regicídio —, depositou esperanças na concretização da República, mas implantado o novo regime, em 5 de outubro de 1910, cedo se mostrou desiludido. Afonso Costa, chefe do Partido Democrático, transformou-se numa das execrações mais inveteradas de Pessoa. Esta aversão foi tornada pública em textos subscritos com o seu nome pessoal ou através de Álvaro de Campos, um dos seus heterónimos mais contundentes.

Basta lembrar este episódio: Afonso Costa viajava num elétrico, em Lisboa, na noite de 3 de julho de 1915 e, de súbito, perante uma explosão na conduta elétrica — que admitiu ser um atentado pessoal à bomba —, saltou do carro em andamento. Da queda resultaram ferimentos que determinaram imediato tratamento hospitalar. Enquanto decorriam manifestações de solidariedade política, Fernando Pessoa (num comentário subscrito por Álvaro de Campos e publicado no jornal A Capital) referiu-se à ocorrência com esta frase de extrema perversidade: “Nesta hora deliciosamente mecânica a Providência Divina serve-se dos carros elétricos para enviar os seus altos ensinamentos.”

Fernando Pessoa preconizava com veemência a “abolição total do conceito de democracia, conforme a Revolução Francesa, pelo qual dois homens correm mais do que um homem só”. “Isto é falso” — argumentava — “porque um homem que vale por dois é que corre mais que um homem só”. E observava com pertinência: “Um mais um não são mais do que um, enquanto um e um não formam aquele um que se chama dois.” Considerava, então, que “a política é a degeneração gordurosa da organização da incompetência”. Ou, então, em termos explosivos próprios do discurso incendiário de todos os ultimatos: “Tirem isto tudo daqui pra fora! Tudo daqui pra fora! (...) Falência geral de tudo por causa de todos! Falência geral de todos por causa de tudo!”

Sem qualquer filiação partidária, aceitou as ditaduras militares de Pimenta de Castro (1915) e de Sidónio Pais (1917-1918). Em face do assassínio de Sidónio Pais (a 14 de dezembro de 1918), classificou-o de “Presidente-Rei”, uma síntese que traduz a amplitude da personalidade carismática que o fascinou. Ao celebrar ainda a memória de Sidónio Pais, escreveu: “Longe da fama e das espadas, Alheio às turbas ele dorme. Em torno há claustros ou arcadas? Só a noite enorme.” E acentuou: “Quando virás, ó Encoberto/ sonho das Eras português/ Tornar-me mais do que o sopro incerto/ De um grande anseio que Deus fez”. É a exaltação categórica do “salvador do país”, à frente de uma ditadura militar.

Justificação da ditadura

A intranquilidade política e social que se verificou em Portugal no período compreendido entre 1912 a 1926 degradou as relações entre os partidos políticos e atingiu o normal funcionamento do Parlamento. Sucederam–se as quedas dos governos, as revoluções nos quartéis e o desassossego nas ruas. Republicanos, monárquicos, anarquistas e comunistas espalharam a insegurança, o risco e o tumulto constantes. O país tornou-se ingovernável.

Foi neste ambiente de grande perturbação que surgiu, em 1926, o golpe militar de 28 de maio, em Braga, e que avançou para o Porto, Lisboa e rapidamente se estendeu a todo o resto do país. Era chefiado pelo general Gomes da Costa e destinava-se a restabelecer a ordem pública. Teve o apoio das guarnições militares, das forças políticas mais conservadoras e do episcopado católico.

O golpe de 1926 não apresentou um programa definido, mas deu lugar à criação da Ditadura Nacional (1926-1933), sucedida pelo Estado Novo presidido por Salazar (1932-1974). Militares e políticos, de várias tendências, em especial ligados ao Partido Democrático de Afonso Costa, tornaram-se acérrimos opositores do regime. Enquanto se sucederam as detenções e os exílios instalavam-se os mecanismos repressivos para manter a segurança interna. Assistiu-se, a 9 de junho de 1926, à dissolução do Congresso da República e de todas as comissões parlamentares de carácter permanente ou transitório. O mesmo decreto-lei extinguiu todos os direitos, regalias e funções inerentes aos membros do Congresso. Salazar tem a seu cargo, em 1928, a pasta das Finanças, até que ascendeu em 1932 a presidente do Conselho de Ministros.

Radicado em Portugal desde 1905, nos últimos anos da monarquia, Pessoa depositou esperanças 
na República, mas implantado o novo regime, em outubro de 1910, cedo se mostrou desiludido

Passou a haver censura diária à Imprensa, foi instituída uma polícia política (que terá várias designações, entre as quais PIDE e DGS, no consulado de Marcello Caetano); são criados tribunais militares especiais, mais tarde denominados Tribunais Plenários, todo um conjunto de estruturas de repressão a qualquer tipo de oposição política, social e cultural. Estava em causa a consolidação de um discurso nacionalista e conservador, sob a égide de “Deus, Pátria e Família”.

É neste contexto que, em 1928, Fernando Pessoa, numa edição do Núcleo de Ação Nacional — fundado já no tempo de Sidónio Pais —, publicou um ensaio com o título “O Interregno” e o subtítulo “Defesa e Justificação da Ditadura Militar em Portugal”. Em sua opinião, era a solução necessária para o renascimento do país, enquanto decorria a reorganização financeira e administrativa.

“A situação de Portugal, depois de proclamada a República” — afirmou Fernando Pessoa — “é a de uma multidão amorfa de pobres diabos, governada por uma minoria violenta de malandros e de comilões. O constitucionalismo republicano — para o descrever com brandura — foi uma orgia lenta de bandidos estúpidos.” (…) “Mas através de tudo, e até nas almas de muitos desses bandidos — acrescentava Pessoa — subsistia qualquer coisa do impulso lírico do ideal originário. E assim se via bandidos da pior espécie — gatunos de alma, vadios orgânicos — baterem-se com bravura pelo ideal que julgavam que tinham.”

Apologia da Força Armada

A defesa e justificação da ditadura militar em Portugal proposta por Fernando Pessoa apresentava-se como “legítima e necessária”. Ao fazer considerações em torno da conjuntura política era perentório: “Estamos hoje [1928] sem vida definida, com a religião convertida em superstição e em moda, com a família em plena dissolução. (...) Toda a situação governante em Portugal depois da queda da monarquia absoluta é substancialmente uma fraude. A fraude, pune-a a lei; porém quando a fraude se apodera da lei, tem que puni-la a simples força, que é o fundamento da lei, porque é o fundamento do seu cumprimento. (...) Temos que apelar para uma força que possua um carácter social, tradicional, e que por isso não seja ocasional e desintegrante. Há só uma força com este carácter: é a Força Armada.”

O comportamento político de Fernando Pessoa, conforme já referimos, manifestou-se ao longo da vida insólito, contraditório e efémero. Daí não surpreender que, em face da promulgação da Constituição Política de 1933, do estabelecimento e da atuação da Câmara Corporativa, se passasse para a oposição e elegesse Salazar como inimigo íntimo. Além das posições públicas que assumiu, há, no espólio de Fernando Pessoa, numerosa documentação quer em prosa quer em verso que denuncia a evolução política ocorrida, sobretudo, no último ano de vida. Os textos foram inventariados, transcritos e comentados por Richard Zenith e, em particular, por José Barreto no livro Fernando Pessoa sobre o Fascismo, a Ditadura Militar e Salazar, do qual extraímos algumas das citações mais relevantes nesta matéria.

Pessoa não compareceu, em 21 de fevereiro de 1935, à cerimónia da distribuição dos Prémios Literários, organizada por António Ferro, no Restaurante Tavares, e à qual presidiu Salazar na qualidade de chefe do Governo. Era de prever a ausência. Pessoa era tímido e reservado. Não frequentava acontecimentos mundanos. Mas, no dia seguinte, ao ler os jornais, ficou indignado com algumas passagens do discurso político de Salazar que formalizava os limites exigidos à liberdade de criação intelectual. “Os princípios morais e patrióticos que estão na base deste movimento reformador” — advertiu Salazar — “impõem à atividade mental e às produções da inteligência e sensibilidade dos portugueses certas limitações, e, suponho, deverem mesmo traçar-lhes algumas diretrizes. (…) Neste momento histórico — prosseguiu — em que determinados objetivos foram propostos à vontade nacional, não há remédio senão levar às últimas consequências as bases ideológicas sobre as quais se constrói o novo Portugal.”

A partir desta ameaça direta do chefe do Governo, Pessoa começou a desligar-se de algumas opções que defendera, nomeadamente no ensaio publicado em 1928 “O Interregno, Defesa e Justificação da Ditadura Militar em Portugal”. Em 1935, numa enumeração de obras que havia publicado, referiu que esse opúsculo “deve ser considerado como não existente”. A reação provocada pelas afirmações proferidas por Salazar, na entrega dos prémios literários, ficou, assim, classificada por Pessoa, num texto existente no espólio. “Um discurso que enxovalha todos os escritores portugueses (muitos deles seus superiores intelectuais) com a fútil imposição de ‘diretrizes’ que ninguém lhe pediu e lhe pediria, e que pedidas que fossem, ninguém poderia aceitar porque nem ele sabe dizer o que sejam esse homem, que assim, com uma inabilidade de aldeão letrado, de um só golpe afastou de si o resto da inteligência portuguesa que ainda o olhava com uma benevolência, já um pouco impaciente, e uma tolerância, já vagamente desdenhosa, não tem sequer o prestígio limitado que lhe permita governar uma república aristocrática, a aceitação de uma minoria que, ainda que praticamente inútil, fosse teoricamente inteligente.”

Mas Fernando Pessoa passou a ser um antissalazarista confesso. Salazar, sob o ponto de vista humano, intelectual e político, inspirava-lhe desdém. A leitura deste poema — integrado numa série de manuscritos guardados na Biblioteca Nacional — e que viria a ser divulgado após o 25 de Abril, é bastante elucidativo: “António de Oliveira Salazar./ Três nomes em sequência regular.../ Oliveira é uma árvore./ Salazar é apelido./ Até aí está bem./ O que não faz sentido/ É o sentido que isto tem”.

A aprovação da Constituição de 1933 e o papel exercido pela Câmara Corporativa, órgãos fundamentais da hierarquia do Estado Novo, mereceram a Fernando Pessoa outro poema ainda mais cáustico: “Solenemente/ Carneirissimamente/ Foi aprovado por toda a gente/ Que é, um a um, animal/ Na assembleia nacional/ Em projeto de José Cabral./ Está claro/ Que tudo/ É desse pulha austero e raro/ Que, em virtude de muito estudo,/ E de outras feias coisas mais/ É hoje presidente do conselho/ Chefe de interfinanças (?) animais/ E astro de um estado novo muito velho/ (...) E eles todos a pensar/ na vitória que os uniu/ neste nada que se viu. Dizem, lá se conseguiu,/ Para onde agora avançar?/ Olhem, vão pra o Salazar/ Que é a puta que os pariu”.

Entre numerosos manuscritos que deixou acerca de Salazar julgava-o “Inteligente sem maleabilidade, religioso sem espiritualidade, ascético sem misticismo. Para governar um país como chefe falta-lhe, além das qualidades próprias que fazem diretamente um chefe, a qualidade primordial — a imaginação. Ele sabe prever. Ele não sabe imaginar”.

“Sociedades Secretas”: extinção e confisco

O deputado José Cabral (advogado, antigo conspirador monárquico e, naquele momento, diretor geral dos serviços prisionais) apresentara, em 19 de janeiro de 1935, à Câmara Corporativa, um projeto de lei visando a extinção das associações secretas. Adotava uma definição de associação secreta que tinha em vista atingir, em pleno, a Maçonaria, incluindo, juntamente com a ilegalização, uma série de sanções a todos os que pertencessem a qualquer tipo de “associação secreta” independente das finalidades da organização.

No discurso que José Cabral pronunciou na Assembleia Nacional, em 5 de abril de 1935, pode ler-se acerca da Maçonaria: “Eu sei de Estados que a não toleram. Estados de características idênticas ao nosso: Estados fortes, autoritários, norteados apenas pela noção firme do bem comum e, assim, sei que a Maçonaria foi exterminada pelo Estado fascista que declarou incompatível com a sua própria existência. Nós temos uma doutrina e somos uma força, disse Salazar, e das mesmas fronteiras, com a doutrina e com a força da Maçonaria.”

Sucederam-se as reações, dentro e fora da Maçonaria, ou seja, no Grande Oriente Lusitano, ao nível das instâncias superiores e no âmbito das centenas de lojas em funcionamento, no continente, nos arquipélagos dos Açores e da Madeira e também nos territórios coloniais: Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Macau e Timor. A Censura e a PIDE encarregaram-se de silenciar. Todavia, jornais afetos ao Estado Novo, à União Nacional e os jornais dependentes das dioceses do episcopado português congratularam-se com a aprovação do projeto e de outras disposições legais, nomeadamente, as leis de 1935 que confiscaram o Palácio Maçónico, em Lisboa, no Bairro Alto, e, posteriormente o entregaram à Legião Portuguesa. A restituição só se efetivou após o 25 de Abril. Precisamente em maio de 1974.

Os Grandes Orientes do mundo

O único texto frontal sobre a matéria foi, como já salientámos, o artigo de Fernando Pessoa publicado a 4 de fevereiro de 1935 no Diário de Lisboa. A posição de Pessoa era inequívoca: “Não sou maçon, nem pertenço a qualquer outra Ordem semelhante ou diferente. Não sou, porém, antimaçon, pois o que sei do assunto leva-me a ter uma ideia absolutamente favorável da Ordem Maçónica.” Era conhecido o grande interesse de Pessoa pelo ocultismo, sendo um conhecedor da astrologia. Realizava horóscopos e mapas astrais, e tinha, por via destes seus conhecimentos, uma grande simpatia pelos ideais liberais e espirituais da Maçonaria. Escreveu ainda: “Fui sempre fiel, por índole, mais reforçado ainda por educação — a minha educação é toda inglesa — aos princípios essenciais do liberalismo, que são o respeito pela dignidade dos homens e pela liberdade do espírito, ou, em outras palavras, o individualismo e a tolerância, ou ainda, em uma só palavra, o individualismo fraterno.”

Outro erro que este aponta aos antimaçons é o de tentarem generalizar o comportamento do Grande Oriente, ignorando a união espiritual e a divisão material da Maçonaria no mundo: “A sua ação social varia de país para país, de momento histórico para momento histórico, em função das circunstâncias do meio e da época, que afetam a Maçonaria como afetam toda a gente. A ação social varia, dentro do mesmo país, de obediência para obediência, onde houver mais que uma, em virtude de divergências doutrinárias — as que provocam a formação dessas obediências distintas — pois, a haver entre elas acordo em tudo, estariam unidas. Segue de aqui que nenhum ato político ocasional de nenhuma obediência pode ser levado à conta da Maçonaria em geral, ou até dessa obediência particular, pois pode provir, como em geral provém de circunstâncias políticas de momento, que a Maçonaria não criou.”

Menciona uma série de factos, acontecimentos e figuras históricos ligados à Maçonaria que têm sido fundamentais para o equilíbrio, prestígio e expansão no mundo para concluir: “Sejamos-lhe gratos por ter sido ela quem criou a base onde veio a assentar a futura vitória dos Aliados — a Entente Cordiale, obra do maçom Eduardo VII. Nem esqueçamos, finalmente, que devemos à Maçonaria a maior obra da literatura moderna — o Fausto, do maçom Goethe”, e deixa claro que há completa ignorância do assunto por parte do Sr. José Cabral, advertindo que se fosse aprovado o projeto por ele proposto, além de inútil e estéril, seria injusto, cruel e um malefício para Portugal ao nível das relações internacionais.

Relações pessoais e literárias

Apesar da identificação com a ditadura, Fernando Pessoa manteve relações pessoais e literárias com amigos do tempo das revistas Orpheu, Centauro, Exílio e Contemporânea (1915-1921). Se preponderavam no conjunto monárquicos, integralistas e católicos, como Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), Almada Negreiros (1893-1970), Cortes Rodrigues (1891-1971), Raul Leal (1886-1964) e Santa Rita-Pintor (1889-1918), também havia republicanos e antifascistas assumidos e com cadastro na polícia política, tais como Alfredo Guisado (1891-1975) e Luís de Montalvor (1891-1947).

De mencionar, ainda, que parte muito relevante da obra ortónima e heterónima de Fernando Pessoa vai ter, a partir de 1928 e até ao fim da vida, o maior acolhimento no grupo e a geração da Presença (1927-1940). Eram na maioria republicanos e antifascistas, adversários confessos do Estado Novo e opositores públicos e de Salazar (José Régio, Casais Monteiro, Gaspar Simões, Arlindo Vicente, Edmundo de Bettencourt, Alberto de Serpa etc.); alguns outros também filiados na Maçonaria, nos quadros da Loja Revolta e da Loja Construir, ambas de Coimbra (Branquinho da Fonseca, António de Sousa, Alberto Martins de Carvalho, entre outros). Podemos acrescentar Vitorino Nemésio, maçon assumido, que não sendo fundador da Presença, acompanhou de perto este movimento literário.

Assim se autorretratou: “Sou um nacionalista que se guia por este lema ‘tudo pela Humanidade, nada contra a Nação, anticomunista, e antissocialista. Templário e cristão gnóstico para combater sempre e em toda a parte — a ignorância, o fanatismo e a tirania (...). Conservador do estilo inglês, isto é liberal dentro do conservantismo e absolutamente antirreacionário.”

A morte virá a arrebatá-lo a 30 de novembro de 1935, no Hospital de São Luís, em Lisboa. Até à véspera, permanecia em casa da Rua Coelho da Rocha, em Campo de Ourique. A família, a irmã, o cunhado e os sobrinhos que estavam na casa do Estoril vieram imediatamente. A adivinhação de Pessoa tornara-se realidade: “De repente sinto o frio daqui e dali. Toca-me no corpo vindo dos ossos (...). Entre as quatro paredes do meu quarto dorme todo o desespero sem remédio de um coração que Deus abandonou.” Mas o fim da sua existência na Terra vai ser o princípio da imortalidade que reconhecerá Fernando Pessoa entre os maiores poetas de todo o mundo.

A escolha de Fernando Pessoa

Mal surgiu a notícia do parecer elaborado pela Câmara Corporativa para submeter à Assembleia Nacional a fim de extinguir a Maçonaria em Portugal (concentrada, na altura, no Grande Oriente Lusitano e no Grémio Luso-Escocês), o Diário de Lisboa decidiu ocupar-se do assunto. Joaquim Manso (1878-1956), diretor do jornal, encontrava-se no estrangeiro a acompanhar a doença de um dos seus filhos, que viria, entretanto, a falecer. As decisões em matéria editorial — que ultrapassasse a rotina quotidiana — recaíam no chefe de redação, o jornalista Norberto Lopes (1900-1989), que tinha todo o apoio dos administradores Alfredo Vieira Pinto e Pedro Bordalo Pinheiro.

Em fevereiro de 1935 era grão-mestre do Grande Oriente Lusitano o general Norton de Matos, que decidiu não prestar declarações à Imprensa. Ao ser contactado, disse que a sua posição constava de uma carta dirigida a José Alberto dos Reis, presidente da Câmara Corporativa, e de uma mensagem interna com a indicação dos procedimentos a adotar. O mesmo aconteceu com o grão-mestre adjunto Oliveira Simões e com o médico Ramón de La Féria, que fora secretário-geral, e estava sob forte vigilância policial — que resultou em mais de dois anos de prisão no forte da Trafaria.

A repressão da censura era enorme. Perante estas duas situações, Norberto Lopes decidiu procurar Fernando Pessoa, para o entrevistar, tanto mais que era conhecida a sua erudição acerca da Maçonaria e de outros temas esotéricos. O contacto — segundo me revelou Norberto Lopes — efetuou-se num gabinete privado do escritório da firma Moitinho de Almeida, onde Pessoa trabalhava, e decorreu com a maior cordialidade, tanto mais que Fernando Pessoa era colaborador assíduo do Diário de Lisboa. Apenas houve uma condição prévia colocada por Fernando Pessoa a Norberto Lopes. “Em vez da entrevista prontificava-se a fazer um depoimento escrito, devidamente datilografado, e que entregaria às primeiras horas da manhã na redação do Diário de Lisboa.”

Assim aconteceu e foi publicado na edição desse mesmo dia, 4 de fevereiro de 1935. Richard Zenith, na consulta que fez nos arquivos recuperados pós-25 de Abril, da Direção-Geral dos Serviços de Censura à Imprensa, apurou que houve alguns cortes, no título, nomeadamente a expressão “um projeto tendencioso”. Nos dias seguintes, a censura à Imprensa impediu a publicação em vários jornais, quer do texto integral quer de transcrições. Todavia, durante o salazarismo e o marcelismo, rea­lizaram-se várias edições clandestinas atribuí­das ao Grande Oriente Lusitano, sem a indicação da tipografia. Foram registadas no exaustivo levantamento biobibliográfico da autoria de José Blanco.


António Valdemar. 1935, o ano em que Fernando Pessoa se tornou imortal, Expresso, 25 de dezembro de 2025

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