O puritanismo digital e a nudez escondida
| Illustration by Tim Enthoven |
A ideia de estar nu num espaço público — mesmo que seja num balneário — é desconfortável para as gerações mais novas. O corpo deve ser escondido e a sua mediação controlada pelo próprio. Toda a nudez será editada.
Não estamos a falar dos tais “púdicos” Estados Unidos que povoam o nosso imaginário. Pode até ser cá. Atualmente, a presença de um par de seios femininos desnudados numa “praia familiar” causa algum frisson. Já não é “normal”. E depois há as crianças... as crianças e os homens — sabe-se como são os homens. Aquele par de mamocas ao léu, ao sol de verão, mais do que um ato de desafio, acaba por parecer algo deslocado no tempo. Sim, porque se puxarmos pela memória, nos finais dos anos 80 e início dos anos 90, o topless tinha-se democratizado e generalizado às áreas dos toldos da classe média portuguesa. O nudismo era moda. Banalidade. E, sim, estar nu era visto como libertação. A nudez era completamente dessexualizada (tirando uns velhos de motorizada que se escondiam nas dunas). Porque se havia algo que se constatava numa praia em que estava tudo pelado, a jogar raquetes e a correr e a atirar-se para as ondas, numa era sem cirurgia estética ou fanatismos de dietas, é que o corpo, em termos gerais, não era particularmente bonito: era imperfeito, alguns mesmo bastante feios, baixinhos e gordinhos, outros altos e acorcundados — mas nada que merecesse demasiada atenção, pois “ver os outros” não era o foco de estar nu numa praia. Não era mesmo. Ninguém queria saber.E damos um salto para os dias de hoje, em que se constata que as gerações mais novas são incapazes até de ficarem nuas em lugares como balneários de ginásios — local onde a nudez é supostamente casual e não sexualizada —, tornando-os espaços de pudor. O que para as gerações mais velhas é estranho e mesmo desconfortável, se derem por isso. Há quem chame a isto um “novo puritanismo”, mas talvez não seja a melhor maneira de descrever esta vulnerabilidade, que tem mais a ver com a morte da privacidade espontânea. A sexualidade até pode ser amplamente discutida, o que diverge da ideia de puritanismo. Mas a exposição do corpo deve ser mediada por imagens curadas e trabalhadas. Uma geração que sabe que há câmaras e smartphones em todo o lado, capazes de viralizar imagens íntimas, é incapaz de se imaginar despida num local público porque é algo que nunca concebeu e acha aterrador. Não precisa de conceber que vá ser fotografado e postado por estar nu ali. É, sim, algo contra a sua intuição e natureza: o estar totalmente nu num local público — mesmo que seja um balneário de ginásio em que, em princípio, estará toda a gente a tratar da sua vida.
Esta mudança de comportamentos tem vindo a ser acompanhada pela própria arquitetura e, nos EUA e mesmo pela Europa, os ginásios têm vindo a optar por cubículos de troca em vez do espaço aberto que eram antes os balneários. Mesmo no desporto profissional. E isto vai mais além do que apenas o receio de uma câmara imaginária. Ora, quem se esforça por não ir nu para o chuveiro dá mais nas vistas porque tem que se vestir e despir enrolado à toalha, a equilibrar-se como se estivesse a trocar de calções na praia. Fica mais patente essa necessidade de se cobrir. Ou toma duche de roupa interior...
Esta espécie de “puritanismo” não tem base religiosa, foi muito marcada pelo wokismo e respira trauma pós-#MeToo. Tal é o policiamento dos comportamentos e a conformidade com normas estritas de consentimento, condutas politicamente corretas onde até risos inapropriados ficaram escrutinados sob uma ótica moralizante. Esta mentalidade de autocontrolo e vigilância moral estende-se ao corpo: a nudez casual é vista como desnecessária. E há aqui um paradoxo absurdo: se bem que possam até partilhar fotos íntimas, editadas e otimizadas, nunca mostraram o seu corpo nu — cru, sem filtro — num espaço público e também nunca viram outros corpos nus.
A nudez, toda a nudez, está obviamente ligada à sexualização do corpo — sendo que este é perfeito e belo, e não imperfeito e cheio de pequenas deformidades como se vê no balneário intimidante. Na nudez social do espaço físico não há filtros, ângulos lisonjeiros ou a possibilidade de edição. O que é assustador. Sim, um paradoxo: a disposição para partilhar dados íntimos online, mas uma exigência de privacidade física extrema em espaços públicos. A nudez é vista como uma perda de controlo da própria narrativa. O nu está sempre sexualizado e associado a riscos de assédio ou exploração digital. Esse puritanismo digital, essa modéstia e autocontrolo moral, é muitas vezes uma forma de reagir à exposição precoce à pornografia (8-10 anos) e uma forma de gerir a “imagem pública” que julgam ter de defender. Estar nu, num balneário público, no meio de desconhecidos, é um risco incomportável. E isto sem perceberem que as características normais do corpo humano não são defeitos.
Mesmo na Europa, o naturismo vai perdendo força e a sauna familiar só existe nos países nórdicos — a sauna de desporto é um potenciador performativo, onde até exercício se faz. Mas cada vez mais o que se constata é o fim do “corpo natural”, a ser substituído por um corpo-imagem, e esse é sempre sexualizado, sujeito a escrutínio e potencial exploração. A nudez física foi desnaturalizada e ressexualizada devido às câmaras, às redes sociais que tapam mamilos e a uma existência de adolescência que só conhece um único corpo real: o seu. Todos os outros são digitais, do porno ao Instagram. E não são nada como os dos balneários, alguns velhos, gordos e imperfeitos para os quais enojadamente se tenta não olhar.
Luís Pedro Nunes. Expresso, 11 de fevereiro de 2026
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sociedade
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