Os desafios das bibliotecas na idade da inteligência artificial

 


Será que queremos continuar a ser uma civilização do livro? 


Há uma inquietação que percorre, neste momento, o mundo das grandes bibliotecas. Uma inquietação que assume contornos de ansiedade ou mesmo de angústia, frente às certezas dos que põem em causa o valor das bibliotecas e às hesitações acerca do caminho a seguir. Dirigentes, bibliotecários, investigadores e os mais diversos tipos de leitores interrogam-se sobre o que irá acontecer às bibliotecas depois da revolução tecnológica que estamos a viver. A digitalização dos livros, revistas e jornais, seguida do seu acesso, público e aberto, através da comunicação em rede, democratizou o conhecimento, a ponto de ter tornado inúteis as bibliotecas. É o que afirmam alguns, mas são muitos os que assim não pensam.

Os recursos digitais também são objeto de uma distribuição desigual, além de colocarem novas barreiras à liberdade e poderem gerar informação não verificada. Neste quadro, será que as bibliotecas acabarão por ficar reduzidas a uma espécie de lugar exótico do passado? Assim parece, a acreditar em O Nome da Rosa de Umberto Eco, onde se projetam imagens de sistemas medievais de conhecimento, ou na mais popular Hogwarts Library de Irma Pince dos romances de Harry Potter, onde os livros formam uma espécie de museus misteriosos. 

No campo oposto (ou talvez não) dessa atitude de relegar as bibliotecas para o passado, está a ideia da sua inutilidade. Se tanto, da sua redução a depósitos onde se acumulam registos em papel tornados obsoletos porque tudo está em vias de ir parar à circulação digital, logo, aos ecrãs. Numa palavra, a revolução digital, com os seus registos e potentes motores de busca, põe em causa as bibliotecas, pelo menos, enquanto instituições concebidas com base nos seus livros físicos e coleções materiais. Pelo menos, é o que por aí se diz.

No entanto, numa das suas versões mais modernas e elaboradas, já me confrontei com a tremenda ignorância dos especialistas em algoritmos frente ao mundo dos livros. Tal sucedeu quando num colóquio que teve lugar em Edimburgo, no verão passado, um dos conferencistas falou das suas tentativas para aplicar a inteligência artificial (IA) ao mundo das bibliotecas. Mais concretamente, o projeto que o dito especialista tinha em curso destinava-se a reconstituir, imagine-se, o “pensamento indígena”.

Esse projeto envolveria engenheiros das ciências da computação britânicos e bibliotecários australianos. Não resisti e perguntei: uma vez que escritores, historiadores e cientistas sociais, todos leitores de bibliotecas, nos últimos séculos, se têm dedicado a estudar o pensamento dos outros (uma categoria decerto mais pertinente do que a de “indígena”), que livros é que a equipa desse projeto estaria a ler para se treinar, a si ou à máquina, para levar a cabo tal reconstituição? A esta questão, o meu interlocutor, que até aí falara com alguma presunção e segurança, não conseguiu responder, nem indicar um único livro relevante.

Colóquio e visão pessimista

No cruzamento de uma civilização, que inclui uma longa história de bibliotecas, com a aceleração contemporânea das mudanças tecnológicas, José Pedro Serra, professor de Estudos Clássicos e Diretor da Biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, convidou para um colóquio de três dias um conjunto de historiadores do livro e não só, na sua maioria responsáveis por grandes bibliotecas.

Entre outros, estiveram presentes: Gilles Pécaut, historiador da Itália oitocentista e presidente da Biblioteca Nacional de França, uma instituição que dispõe de um orçamento comparável ou mesmo superior ao do Louvre; Robert Darnton, historiador do livro francês no Iluminismo, professor em Princeton e em Harvard (nesta última universidade, foi diretor da sua gigantesca Biblioteca e fundador da Digital Public Library of America, DPLA, uma base de dados criada para responder à deriva comercial da Google Books); Richard Ovenden, historiador do livro, professor do Balliol College e diretor da Bodleian Library de Oxford; Roger Chartier, o mais conhecido historiador do livro e da cultura do público português, professor emérito do Collège de France, cujas obras alcançaram uma enorme projeção internacional; e Gilda Santos, que foi professora de literatura portuguesa na UFRJ e é diretora do Real Gabinete Português de Leitura — a instituição que mais tem feito para afirmar a continuidade da presença da cultura portuguesa no Brasil.

Quais as principais questões levantadas, argumentos em discussão e linhas de atuação propostas para o futuro, por parte de oradores com tanta experiência acumulada em relação às bibliotecas? Longe de ter conseguido sistematizar todos os ensinamentos retirados de um colóquio, onde o sentido crítico e o debate franco estiveram ao rubro, limito-me a identificar alguns aspetos principais.

Parto de um debate que esteve latente em várias intervenções. Receio, porém, que não haverá consenso sobre a sua natureza, pois o que esteve realmente em discussão só se entende se existir uma simplificação forçada dos termos em oposição. De um lado, encontram-se os que defendem que as bibliotecas pertencem a um sistema de conhecimento que organiza os livros e os disponibiliza, para que estes ocupem na formação de cada indivíduo o papel de instrumentos críticos, ajudando à formação de grupos que participem na construção de uma esfera pública, capaz de sustentar a democracia, tanto mais que o conhecimento disponibilizado pode ser considerado verificável. Assim, a materialidade dos livros e a experiência física de os ler, em conjunto com outros leitores, supõe um compromisso com a crítica, com a verificação do conhecimento e com a ideia de totalidade, estabelecida tanto à escala do conjunto da obra, como de um conhecimento enciclopédico e interdisciplinar.

Do outro lado da barricada, estariam todos aqueles que consideram acabado o papel das bibliotecas e que acreditam piamente no facto de a transição para o digital representar uma espécie de virar de página. Contudo, a desmaterialização dos livros reduzindo a sua existência aos ecrãs, além de forçar à sua uniformização, empobrece as práticas de leitura. Estas ficariam reduzidas a um exercício isolado, associal, com implicações na saúde mental dos jovens e não só, deixando de contribuir para a construção de comunidades de leitores, potenciadoras de inter-relações. Por sua vez, insista-se, os conhecimentos transmitidos por via eletrónica, longe de serem verificáveis e de favorecerem posicionamentos críticos, afiguram-se excessivamente fragmentados, descontextualizados e, por consequência, incapazes de favorecer visões de conjunto.

Roger Chartier foi quem melhor expôs a antinomia acabada de descrever. O seu pessimismo em relação ao ataque a que as bibliotecas estão sujeitas mantém uma relação direta com as suas preocupações relativas à crise da leitura, em geral, e à crise das humanidades, no que respeita as universidades. O problema é que uma antinomia que se alimenta de uma visão tão pessimista coloca-nos, a todos, à beira de um precipício — de um tempo apocalíptico que nos impede de ver o óbvio e de compreender perspetivas mais matizadas.

Por uma visão matizada das bibliotecas

Num passado não muito longínquo, as bibliotecas nem sempre foram feitas e mantidas em função de lógicas críticas e de projetos de educação emancipatórios. O seu papel serviu para a afirmação dos poderes, sendo comparável ao dos túmulos, das pirâmides e da construção de monumentos, e associou-se as práticas de distinção social. Neste sentido, a história das bibliotecas — longe de poder ser associada, em exclusivo, à formação de um espaço público crítico — obedeceu, durante muito tempo, a objetivos de monopolização dos saberes por parte dos poderes instalados. E, tal como sucedeu com os usos da imprensa no Ocidente, durante o primeiro século de existência depois de Gutenberg, as bibliotecas favoreceram mais, muitas vezes, a imposição de dogmas e a continuidade dos saberes estabelecidos do que a divulgação do conhecimento crítico.

Robert Darnton foi quem contrariou a antinomia estabelecida por Chartier. Para isso, saiu em defesa da digitalização evocando duas razões principais: por um lado, argumentou que, a partir dela, existiria um acesso mais aberto e democrático a todas as formas de conhecimento; por outro lado, reconheceu que os projetos públicos e gratuitos de digitalização (DPLA, Gallica, Europeana) são necessários para contrariar as formas de apropriação pelo mercado do conhecimento (tal como aconteceu com a Google que, numa primeira fase, recorreu às bibliotecas públicas e universitárias para construir as suas bibliotecas digitais que, depois, procurou vender às próprias bibliotecas).

O argumento de Darnton, em defesa da digitalização, exclui os termos da referida dicotomia avançada por Chartier, para passar a incluir as condições de acesso público e democrático ao conhecimento contido nos livros, bem como a questão do respeito pelos direitos de autor. Estes últimos afiguram-se tanto mais importantes quando o que está em causa é a autorização indevida de textos de autor para alimentar as gigantescas bases de dados da inteligência artificial. 

Assim, à antinomia proposta por Chartier, Darnton contrapôs uma visão mais matizada da história das bibliotecas e das diferentes configurações dos usos do livro. Simultaneamente, sublinhou a necessidade de todos os profissionais que vivem do livro — da sua produção aos seus usos e consulta em biblioteca — se guiarem por uma espécie de ética capaz de articular o acesso público e aberto ao conhecimento com a defesa dos direitos de autor.

A intensidade com que se extremam posições em torno do papel das bibliotecas — neste tempo de revolução tecnológica e de aceleramento das mudanças nos suportes que dão a ler os livros — coloca o problema de se saber se queremos continuar a ser uma civilização do livro e, por inerência, das bibliotecas. Não se trata, apenas, de reivindicar esse exclusivo para as civilizações que tiveram origem no denominado Crescente Fértil, assumido depois, sucessivamente, como legado greco-latino e como legado construído em torno do livro sagrado do cristianismo. Trata-se de elementos de uma civilização do livro, europeia e ocidental, que a revolução tecnológica iniciada por Gutenberg potenciou ainda mais. Não se descure a existência de outras civilizações que também se reivindicam da centralidade do livro.

Porém, o que mais importa verificar é até que ponto se assistiu, primeiro na Europa, depois em todo o Ocidente, a um modo de apropriação ou de uso dos livros e das práticas de leitura em biblioteca destinado a criar um sistema autónomo de conhecimentos. Um sistema cultural que, em parte, se cruza com o alargamento das instituições educativas, suscitado pelo Estado e pelos poderes públicos, mas dele separado e com condições para criar condições de expressão livre, próprias de um pensamento crítico.

Na conferência de encerramento do colóquio, Richard Ovenden referiu-se à teoria da justiça de John Rawls, tendo sido o conferencista que mais se comprometeu em articular o papel de democratização dos conhecimentos, veiculado por livros e bibliotecas, com a esfera normativa do contrato social que, desde John Locke, modelou o constante processo de transição para a democracia. Tal como se uma civilização do livro e das bibliotecas — simbolizadas estas nos seus primórdios pela Biblioteca de Alexandria — tivesse sido capaz de incorporar várias configurações históricas: desde a passagem do rolo de papiro ao códice, da leitura em voz alta à leitura silenciosa, seguindo-se a entrada da tipografia e o alargamento sucessivo da esfera pública, com destaque para a circulação dos jornais, para se chegar à revolução digital, representada pelos ecrãs dos computadores, e, por último, à IA.

Civilização de bibliotecas

A uma outra escala, mais diretamente relacionada com a gestão das bibliotecas, será possível perceber as inúmeras dificuldades que essa civilização do livro continua a manifestar. A este propósito, foram quatro as linhas de atuação que se insinuaram como essenciais ao longo do colóquio.

Antes de mais, foi consensual a necessidade de valorizar todos os que trabalham nas bibliotecas, a começar pelas suas condições salariais. A valorização do trabalho dos funcionários administrativos, dos engenheiros informáticos ou dos investigadores surge como tão importante quanto a dos bibliotecários e quadros auxiliares, porventura com maior capacidade de reivindicação corporativa. As instituições, constituídas em torno da organização dos livros e da sua disponibilização, têm na sua base o trabalho e os trabalhadores que ali exercem as suas funções no quotidiano. A sua voz, as suas iniciativas responsáveis, as suas capacidades em integrar equipas e o reconhecimento do seu trabalho são tão essenciais quanto a ação dos professores do ensino básico e secundário no interior de um sistema de ensino. A sua formação permanente, implicando investimentos e recursos de várias ordens, impõe-se como uma prioridade, ao lado da valorização das carreiras de todos os que trabalham dentro das bibliotecas.

Em segundo lugar, encontram-se as questões da defesa, disponibilização e estudo do património bibliográfico e documental. Este terá sempre de ser entendido de forma ampla, incluindo tanto os tesouros e livros raros como o depósito legal ou aquisição de livros recentes. É neste âmbito que mais se fazem sentir as múltiplas funções que competem às bibliotecas, as quais vão do serviço público para satisfazer a necessidade dos mais diversos leitores (investigadores, jovens leitores que necessitam de ser acolhidos e formados no uso de bibliotecas, leitores com necessidades especiais, etc.) até à gestão do catálogo, destinado a defender o património impresso e manuscrito da cultura e língua de cada país.

Quanto à defesa do património bibliográfico pelas bibliotecas nacionais, Gilles Pécaut, presidente da Biblioteca Nacional de França, colocou três questões. Antes de mais, esclareceu que em França a lei do depósito legal se reduz a um único exemplar e defendeu a necessidade de pôr em prática uma lei do depósito legal dos livros digitais (um aspeto em que Portugal se deixou atrasar com um enorme risco de já se terem perdido duas décadas de registos). Depois, argumentou acerca da necessidade de uma biblioteca nacional praticar uma “diplomacia da solidariedade e da reciprocidade em torno do livro” o que implica uma ambição de “mundialização”, ou seja, de ir para além do simples domínio da cultura nacional. Por último, Pécaut assumiu que o modelo de funcionamento das bibliotecas universitárias, a começar pelo da Sorbonne, influenciou em muito o da BNF, porém, continua a caber às bibliotecas nacionais servir os mais diversos tipos de público, contribuir para estimular a leitura e gerar comunidades de leitores.

Uma terceira linha de atuação prende-se com a necessidade de uma constante modernização das bibliotecas. A interrogação acerca do impacto da revolução tecnológica — da digitalização à IA — já foi aqui amplamente discutida, a começar pelos termos utilizados pelos principais intervenientes no debate. O problema que ainda não foi colocado é o das razões, nomeadamente financeiras, que estão na base da pressão que todas as bibliotecas sofrem. Sem entrar propriamente numa espécie de teoria da conspiração, suspeito que os fabricantes de sistemas informáticos são suficientemente poderosos e zelosos dos seus interesses para conseguirem influenciar os processos decisórios de organizações políticas internacionais acerca da urgência dos seus produtos, para consumo dos quais urge disponibilizar recursos financeiros.

Uma tal insinuação não descarta a necessidade de as bibliotecas se modernizarem, procurando articulações que correspondam a boas práticas. Ora, estas últimas deverão impedir que as bibliotecas públicas fiquem na mão dos fornecedores de tais sistemas, numa situação de troca desigual, devido ao simples facto de não conseguirem recrutar os melhores engenheiros informáticos. De igual modo, a modernização das bibliotecas não se pode restringir ao eixo digitalização-IA. Outras áreas, com menos capacidade para influenciar os processos políticos de tomada de decisão, também deverão ser consideradas. Por exemplo, os trabalhos de catalogação e os investimentos em preservação — obrigando estes últimos à criação de condições materiais, espaciais e arquitetónicas — também deverão ser considerados urgentes.

Uma quarta e última linha de atuação inspira-se na noção de “diplomacia da reciprocidade”, referida por Pécaut. Para que tal aconteça, no âmbito das bibliotecas, o mais importante é manter em aberto os canais de comunicação com outras bibliotecas. Neste momento, por exemplo, a BNP voltou a participar ativamente na rede de diretores das bibliotecas europeias, das bibliotecas ibero-americanas e está empenhada em contribuir para a rede de bibliotecas dos países de expressão portuguesa. Já existem resultados dos contactos estabelecidos com as suas congéneres francesa, espanhola e brasileira (sem descurar o facto de existir, desde longa data, uma relação estreita com o Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro). Além das trocas de experiências e estágios inter-bibliotecas, muito mais haverá a fazer para melhorar e modernizar as bibliotecas nacionais e procurar atenuar as desigualdades.

Tais medidas de ação, de carácter prático, não são mais do que elementos pontuais destinados a manter uma civilização do livro, no interior da qual as bibliotecas cumprem um duplo objetivo. Por um lado, o de se constituírem quer em lugares de memória das culturas nacionais, locais ou mesmo de influência mundial, quer em centros de conhecimento fundados na leitura do livro, qualquer que seja o suporte que o dá a ler. Por outro lado, o de serem espaços onde todos os que nela trabalham em torno do livro, em conjunto com os seus leitores, formando grupos e comunidades, se responsabilizam e lutam tanto pelo progresso do conhecimento verificado, como pela criatividade — valores de uma sociedade mais justa e solidária, capaz de respeitar direitos e diferenças.


Diogo Ramada Couto. Será que queremos continuar a ser uma civilização do livro - os desafios das bibliotecas na idade da inteligência artificial. E-Revista, Semanário Expresso, 1 de janeiro de 2026



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