Corre a notícia de que morreste na madrugada passada
Corre a notícia de que morreste na madrugada passada. Deve haver um engano porque ainda agora, agorinha mesmo, os outros todos a dormir, a madeira do louceiro, crac, crac-crac, e tu com a voz rouca dos cigarros, “a solidão mede-se pelos estalos dos móveis à noite”, a desbaratares sublimes clarividências logo num primeiro parágrafo. Se não estivesses vivo como poderias continuar a avisar-me da solidão nos móveis que herdei de quem foi bem menos só do que eu.
Habitamos o mesmo tempo, o mesmo espaço, a mesma língua. Na verdade, não é bem assim. Coincidimos neste canto do mundo, partilhamos quase os mesmos calendários, mas a língua em que escreves é coisa tua, magma que esticas, encolhes, torces, desfazes e fazes, “menino com medo, menino a quem Deus às vezes diz ao ouvido que gosta dele”, menino sabedor dos vivos e das coisas, tornando a língua portuguesa mais bela e mais cruel, como acontece nas histórias de amor. “Um coração quando se fecha, faz muito mais barulho do que uma porta. Somos búzios que nenhum eco habita.”
Sabemos — tu e eu sabemo-lo; quem mais? — que só há a memória. “Que coisa estranha a memória, ela de há tempos para cá ia jurar que a faltar-me, tantos espaços, de repente brancos.”
Ouço-te com os enganos da minha memória, “é a minha mão que escreve os livros, ou terá sido, são os livros que se escrevem a si próprios. Não sei fazer outra coisa senão escrever”. As minhas memórias acrescentadas pelas tuas, um corpo de criança que não conheci, o pé a escapar do lençol-mortalha, pequenino, “prometi escrever para aquele pé que vi ser levado da sala do hospital”.
E agora todos embirraram que morreste. Por todo o lado palavras solenes capazes de matar de vez os mortos. Felizmente tu contraria-los, desmente-los. “É preciso viver, viver como homem comum entre homens comuns. Só um homem comum pode fazer grandes coisas. Morrer é quando há um espaço a mais na mesa e se afastam as cadeiras para disfarçar. O dia da nossa morte é um dia como outro qualquer, só que mais curto.”
Um dia mais curto. Talvez seja verdade que morreste. Mas a morte de que falam é a morte-de-brincar, a morte-dos-corpos. Dramatizamos mais o que é a brincar. Jogam-se lágrimas e soluços. Como se desce do palco? Nenhuma morte interrompe a vida-a-sério. “A vida, a tal pilha de pratos a cair.” As vidas-de-brincar, vidas-de-corpos, encerram vidas-a-sério que são as que verdadeiramente importam. Estas, sim, eternas. As vidas-de-brincar, com o atrapalho dos seus corpos, destilam a vida-a-sério no tempo que vai do nascimento à morte. Umas destilam-na mais, outras menos. Raras vidas-de-brincar, vidas-de-corpos, foram tão porosas quanto a tua foi. O passado é um tempo verbal doloroso, traiçoeiro. “Escrever é um bocado fazer respiração boca-a-boca ao dicionário de Moraes, à gramática da 4ª classe e aos restantes jazigos de palavras defuntas.”
Sim, é verdade que morreste. Deixaste-nos vida-a-sério. Fizeste-o sem o cálculo e zelo cobarde dos funcionários servis. Foste brisa e breu sem instruções, recitaste as regras da amizade e da traição sem castigo, dominaste o divino e o abominável sem aplausos, consciente de que a alegria deve ser substantivo órfão. Ressuscitem, pois, os poetas que invejavas, rompam aos saltos e aos pinotes, façam estalar no ar chicotes, espantem-se os pássaros em alada supernova — “os pássaros comandam o mundo e odeiam-nos cheios de unhas e raiva” — porque morreu um homem que criou um universo eterno a caneta, folhas de papel e letra miudinha. Acredite-se: escritor lido, nunca será morto.
Mal nos conhecemos. Falámo-nos duas vezes, brevemente. Conversas que não nos correram bem, prova é não terem tido seguimento. De novo, o caruncho da solidão neste beco sem saída em que tantos se desencontram. Estranharás, por isso, o tratamento coloquial. Parece-me, no entanto, avisado dispensarmos o tom cerimonioso, não vá sermos apanhados pela morte-a-sério se nos enredarmos em formalidades. Deixemo-nos levar pelas “palavras secas e exatas como pedras”.
Ainda todas as palavras se me apresentavam opacas e perras, vi-te na televisão. Eras um homem bonito, ainda jovem. Apresentavas um dos teus primeiros romances, “Os Cus de Judas”. Não me lembro do que disseste, ter-me-ei desencaminhado no azul embotado dos teus olhos. Procurei o livro na biblioteca da escola, não o tinham. Anos mais tarde, vi-o numa estante em casa de um namorado meu, pedi-o emprestado e nunca mais te larguei. “Os maus romances contam histórias, os bons romances revelam-nos.” Devo-te muito, ainda que nunca to tenha dito. A gratidão também tem as suas vergonhas.
Aprendi contigo a guerra em Angola — e com ela todas as outras, porque a crueldade é uma repetitiva lengalenga dos senhores do mundo —, o fim do Império e o sonho das varandas com marquise, o gasto esplendor de Portugal, a “pôr franjas de crochet nos sentimentos”, os encantos do Sandokan e do Flash Gordon, a formosura das mulheres de bigode, os subúrbios e os corredores dos loucos, a tristeza das palmeiras no inverno, “os semáforos chupa-chupas em noites chuvosas”, a arte do verniz estalado nas unhas das mulheres.
“Os livros têm uma chave.” Entrar como quem chega a casa. O Meu Paraizo escrito a ferro na fachada. “O nome na capa deveria ser o do leitor.” Não importa que a leitura possa ser um banquete desregrado onde o prazer camufla o resto, que importância tem o resto? Dizias que gostavas de pessoas, “gosto das pessoas, gosto que me leiam, gosto sobretudo de conhecer as pessoas que me leem e me ajudam a sentir que não lanço ao acaso do mar garrafas com mensagens corsárias, que se não sabe onde vão ter, e gosto dos romances que escrevi. Tenho orgulho neles e tenho orgulho em mim por ter sido capaz de os fazer”.
“Escrever é delírio organizado.” Pode ser que assim seja. Ou talvez a escrita se cumpra caprichosa no seu mistério. Um mistério onde se arrisca a frase perfeita como se da vida se tratasse, avançando de palavra em palavra, numa aflição de ravina. Nunca escrevi a frase perfeita que está na minha cabeça. “Nunca escrevi o livro que está na minha cabeça.” Mesmo depois de milhares e milhares de “palavras secas e exatas como pedras”, nunca paraste de procurar, uma busca infinda.
Vejo-te fotografado ao lado dos teus manuscritos, folhas e folhas rasuradas, emendadas, quase indecifráveis, um cigarro aceso a trocar por orgulho o pudor de quem põe a alma a nu. Amplio as imagens no ecrã do computador, vasculho a caligrafia com que borras e consertas o mundo. Detenho-me na forma como desenhas o E o M maiúsculos, a impaciência das vírgulas, os pontos de interrogação indecisos, o traço por baixo do teu nome assinado. Já me aconteceu ver manuscritos teus em leiloeiras, lotes com títulos e resumos, datas e garantias de autenticidade, cartas de amor, notas de agradecimentos, recados, declarações, autógrafos. Isso, as entrevistas que deste, as crónicas, um não acabar de histórias que se contam sobre ti, dão-me a ilusão de que sei quem foste. Reparo agora que te estruturei em binómios: África e Guerra Colonial, amores e praia das Maças, infância e Benfica, medicina e leitura, subúrbios e divórcios, prémios e rancores de trazer por casa, pose e desafio, ternura e altivez, privilégio e humildade.
Quando me telefonaram para me pedirem que escrevesse sobre ti, estava a ler-te em voz alta. Não conheço melhor homenagem que se possa fazer a um escritor. A manhã ia nevoenta, de mãos dadas com a melancolia. Quando desliguei, regressei à quadra que a tua mãe dizia quando te deitava. Li em voz bem alta para chegar ao céu,
“Com Deus me deito/ com Deus me acho/ aqui vai o Tóino/ pela cama abaixo.”
Depois, num sussurro, “eu ia e logo a seguir nada. Um dia destes vai ser assim, desejo que um dia destes seja assim”.
Querido António, que tenha sido assim.
“Com Deus me deito/ com Deus me acho/ aqui vai o Tóino/ pela cama abaixo.”
E logo a seguir tudo.
Dulce Maria Cardoso. E-Revista Expresso, 12 de março de 2026
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