Aguarela de Paris, o novo romance de João Pinto Coelho

 

 #aLerMaiseMelhor

Começou com Perguntem a Sarah Gross, em 2015, e uma dúzia de anos depois João Pinto Coelho continua a deslizar no Holocausto, seu indesmentível território primordial na literatura. Entre os escritores portugueses, nenhum mergulhou assim nas vísceras de Auschwitz e Birkenau.


Lê-se João Pinto Coelho como se lê a História, mas a partir de dentro
★★★★
AGUARELA DE PARIS
João Pinto Coelho
D. Quixote, 2026, 424 págs.
Romance


No novo romance, quinto do autor, começamos nas Terras Altas da Escócia, seguindo Franca e Giullietta, duas gémeas indistinguíveis, que abrem ao leitor as portas para uma dinastia de banqueiros judeus da Europa. Ora, os muros da aristocracia irão contrastar com os dos campos de concentração: sem surpresa, é aí que o autor mais voa, como já o fizera antes. O romance é audaz, tanto do ponto de vista formal, saltitando entre lugares e pontos da vida (Giullietta desfila em Paris como artista destacada, Franca cruza-se com espiões na costa do Estoril), quanto do ponto de vista das temáticas, já que o autor entrelaça, sem que se vejam as costuras, as questões históricas com os arcos das vidas individuais das personagens. É através delas que o autor observa os traços mais marcantes do século XX, e que mais uma vez escancara o horror. Para essa sensação de visão do horror a céu aberto, muito contribui a capacidade de que tem de fazer uma prosa despojada de entulho. 
 
De livro em livro, o autor parece fazer uma cartografia do Holocausto, sem ceder a uma coetânea tendência para o comercializar ou romantizar. 
Em vez disso, lê-se Pinto Coelho como se lê a História, embora a partir de dentro. Em vez da descrição por cima, através de números, tem-se gente a viver entre “a extensa coluna de fumo ou o cheiro a carne queimada que se espalhava pelo campo”. Com a prosa limpa do autor, vê-se o mesmo que as personagens: “homens, mulheres e crianças a caminharem em fila para a morte disciplinada que os aguardava.” 
 
Ana Bárbara Pedrosa. "Lê-se João Pinto Coelho como se lê a História, mas a partir de dentro", Expresso, 2 de julho de 2026 
 
 

Comentários