Uma odisseia americana
#LiteraciaFilmica #aLerMaiseMelhor
Clara Ferreira Alves, Escritora e Jornalista
É impossível consumir uma obra-prima sem os orgulhos e preconceitos do tempo. E a subjetividade, que molda as paixões.
Nunca gostei de livros infantis. As minhas histórias infantis foram a Odisseia e as Viagens de Marco Polo. Estas leituras condicionaram a vida adulta, muito mais do que as fábulas morais ou a pastilha elástica Disney. Nunca achei piada à Branca de Neve e nunca fiquei à espera do príncipe da Bela Adormecida. Quanto aos contos da Condessa de Ségur ou aos livros para “meninas”, uma teia de capitulações femininas e bons casamentos, nunca acabei nenhum. Orgulho e Preconceito maçou-me, idem para o insuportável Mulherzinhas. Em compensação, as irmãs Brontë e em particular O Monte dos Vendavais eram atraentes e sabiam a tragédia grega. Heathcliff é uma das personagens mais sedutoras e complexas da literatura, embora a versão contemporânea o tornasse sanitário e higienizado, atravessado por pecados civilizacionais, um praticante de violência doméstica, e uma “vítima do racismo” que o tornou branco nas versões modernas de Laurence Olivier, Ralph Fiennes e Jacob Elordi.
Quase toda a violência sobre as mulheres era, à época, doméstica. Praticada dentro de casa, no ninho conjugal ou paternal. O apertado corpete religioso que controlava a desobediência, e que condenava as mulheres ao convento ou ao asilo, escapou em Emily Brontë para as escarpas agrestes do amor obcecado. Cathy é tragicamente submissa e tão cruel como Heathcliff. Ambos praticam a indiferença que Scott Fitzgerald retratou em O Grande Gatsby, nas personagens dos milionários Tom e Daisy Buchanan. “Eles eram descuidados. Tom e Daisy — partiam coisas e criaturas e a seguir refugiavam-se no seu dinheiro ou na larga displicência ou o que quer que fosse que os mantinha juntos, deixando aos outros a tarefa de apanhar os cacos.” Hoje chamaríamos a esta gente psicopatas. Egoístas sem bússola moral. Falta de superego. Freud e a interpretação psicanalítica entraram no jogo.
O Grande Gatsby também tem o sabor da tragédia grega. Na cultura ocidental, e europeia, a tragédia grega é a matriz. Entre nós, não existiria Camões sem os gregos. Nem certas faces de Pessoa, Caeiro, Reis, sem os gregos. E nos gregos está Homero.
O que nos remete para a Ilíada e a Odisseia. Esta Odisseia foi adaptada por Christopher Nolan numa versão tão americana e contemporânea, com pinceladas woke, que tem despertado paixões. Há quem odeie e quem adore, e nos tempos que correm, nada se interpõe. Ou se ama ou se odeia, réplica trivial das paixões assolapadas das redes sociais opinativas submetidas ao algoritmo. É tudo ou nada. Claro que Elon Musk, cioso da influência, se enfiou no debate para acusar Nolan de querer os Óscares ao dar a uma atriz negra, Lupita Nyong’o, o papel de Helena de Troia. “O rosto que lançou ao mar mil navios.” O argumento é mesquinho, não por causa do racismo, mas por causa da irrelevância. Como disse Laurence Olivier a propósito dos atores de método, “Try acting”. É boa ou má atriz? O que não dispensa o piscar de olhos ao multiculturalismo diverso.
O que importa é quanto esta Odisseia se libertou do poema original, um longo poema oral talvez iniciado no período de literacia dos séculos VIII e VII a.C., representado perante audiências, e que entrou no cânone literário universal através de sucessivas traduções, ao longo de séculos, até se transformar no que hoje chamamos um “livro”. Eram, consta, 24 livros. A atribuição a um único autor, Homero, é discutível na academia, pouco importa. Está cristalizada. Uma das primeiras traduções atribui-se a Livius Andronicus, um dos primeiros textos em latim que sobrevive fragmentado. A Odisseia continua em distintos movimentos de tradução e interpretação, circulando ao longo dos séculos. Sem perder atualidade e atenção. No século XIX, Manuel Odorico Mendes deu-nos uma versão em português, e no século XX Ezra Pound interpretou a Odisseia nos Cantos. T. E. Lawrence, nos intervalos das revoltas árabes, tentou uma versão da Odisseia em prosa, publicada em 1932. Um dos azares de Camões na circulação editorial internacional, leia-se anglo-saxónica, foi o de existir na grande editora de poesia Faber um livro titulado Cantos. Segundo a divertida interpretação de George Steiner do “esquecimento” de Camões no cânone, numa conferência que proferiu na Fundação Luso-Americana in illo tempore. Harold Bloom reconduziria Camões ao trono canónico ocidental. Em Portugal, temos hoje a versão de Frederico Lourenço, o nosso ilustre classicista.
Não sou uma purista, a minha primeira Odisseia foi em banda desenhada, consumida em francês. Apaixonei-me pela história e as personagens. Mais tarde, fixei a Odisseia na tradução em inglês de Robert Fagles (1933-2008), introdução e notas de Robert Knox, uma capa dura pesada que andava comigo em viagem. Uma versão mais liberal e poética de um original que ninguém conhece. Fagles deixou ainda “traduções” da “Ilíada” e da “Eneida”. Fagles admitiu ter tentado amaciar o tratamento das mulheres no livro, o que agradou ao feminismo. Voltamos à violência doméstica. É impossível consumir uma obra-prima, por mais obra-prima que seja, sem os orgulhos e preconceitos do tempo. E a subjetividade, que molda as paixões. Em português, o trabalho de Frederico Lourenço é louvável e percebo o facto de ele não querer ver a versão de Nolan. É uma versão sanitária e higienizada de Ulisses. Segundo a nova tradução de Emily Wilson, que não li. E vou ler em agosto.
Nolan é um discípulo do grande David Lean, Lawrence da Arábia e Doutor Jivago, dois filmes do meu cânone. Formativos. E, no meio dos horrores da atual “indústria” do cinema, A Odisseia de Nolan tem planos de irredutível beleza. A figura humana diluída na paisagem. O cavalo na praia, reluzindo ao sol como um monstro pré-histórico, é notável e implausível, porque o cavalo que era de madeira parece de metal pesado. Num cerco de dez anos dos gregos a Troia, construir um cavalo destes só na imaginação de Hollywood (Nolan é inglês e americano). E o trabalho de câmara, tanto nas cenas rápidas e brutais, como nas sentimentais e pausadas, é bem conduzido, a cinematografia brilha. O problema não é dos atores. Se Lupita não podia ser Helena, Matt Damon, all-american boy com músculos cinéticos de Jason Bourne, não parece muito grego. E não se parece com Ulisses. O físico não importa.
Este Ulisses, cansado de guerra, é um homem da dobra do século XX para o século XXI, confrontado com a dúvida existencial e cheio de angst, corroído por stress pós-traumático. Psicologizado à náusea, carente de terapia. Assexuado, mais do que casto, e traumatizado. E Calipso, que faz dele escravo sexual durante sete anos, passa a psicoterapeuta. Sexo? Nem migalha. Na Odisseia, a cama de Calipso, como a de Circe, são obrigatórias, com ou sem o adultério, e a pobre Penélope no tear. E Circe, a feiticeira que transforma os guerreiros gregos em porcos? É em Nolan uma façanhuda feminista com discurso a acompanhar, numa das cenas mais ridículas do filme. Nausícaa, a princesa fenícia que salva o naufragado Ulisses, sumiu. E Atena, uma manipuladora tão indiferente ao sofrimento alheio como Ulisses, é uma adolescente saída do Homem-Aranha. Tal como Telémaco, o filho que combate o assédio (moderna palavra) dos pretendentes a Penélope. Ulisses vagueia durante dez anos, ao cabo de dez anos de cerco e de guerra, e a Odisseia é a dupla história da deambulação e seus perigos e ciladas, e do regresso a casa.
A Odisseia é uma aventura prodigiosa. E Ulisses sobrevive graças ao génio e invenção, hoje inteligência prática, e à indiferença que os custos da sobrevivência acarretam para quem se atravessa na frente. O regresso a casa é autorizado pela displicência brutal, a falta de cuidado. Só ele regressará a Ítaca. Como Tom e Daisy, Ulisses parte coisas e pessoas, e refugia-se na determinação do regresso. Em Ítaca, os pretendentes não são tão castos como no filme. A Odisseia é uma aventura recheada de barbaridade e perversidade, uma saga do tempo antigo, quando matar e morrer eram atos da natureza, antes do nascimento do homem judaico-cristão, agrilhoado à consciência moral. Marguerite Yourcenar começa assim as Memórias de Adriano, num tempo romano em que o homem foi livre porque os velhos deuses tinham morrido e os novos ainda não tinham nascido.
Os deuses da Grécia são personagens-chave da Odisseia, e desapareceram no filme. Exceto a tíbia Atena-menina. Atena, a deusa intelectual, filha favorita de Zeus, deusa das artes da guerra e da sobrevivência, é este ser magoado, condoído e reprovador? O grilo do Pinóquio? Não.
MMM
Não deixo de recomendar o filme. Mesmo quando a adaptação trai o tempo e o modo homérico. Trai a humana natureza dentro de um poema épico que não é de Hollywood desinfetado. A sobrevivência, como a guerra, é um instinto selvagem.
Clara Ferreira Alves, Uma Odisseia americana. Expresso, 28 de julho 2026

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