eBook | Imaginários do mar: uma antologia crítica. Vol. II

 






"O ato de criação é de natureza obscura; nele é impossível destrinçar o que é da razão e o que é do instinto, o que é do mundo e o que é da terra […]. Não há vitória definitiva sem a reconciliação dos contrários. É no mar crepuscular e materno da memória, onde as águas «superiores» não foram ainda separadas das «inferiores», que as imagens do poeta sonham pela primeira vez com a precária e fugidia luz da terra.
Diante do papel, que «la blancheur défend», o poeta é uma longa e só hesitação. 
Que Ifigénia terá de sacrificar para que o vento propício se levante e as suas naves possam avistar os muros de Tróia? Que augúrios escuta, que enigmas decifra naquele rumor de sangue em que se debruça cheio de aflição?"

Eugénio de Andrade, «O sacrifício de Ifigénia», in Rosto Precário, p. 19-20.


"Antes de surgirem as primeiras sílabas, antes de brilharem, nas trevas da noite primordial, as primeiras palavras que se unem umas às outras no leito nupcial do ritmo, é do mar que emerge, para Eugénio de Andrade, a poesia. Mar enquanto plasma matricial e indiferenciado gerador de todas as formas, análogo, neste sentido, à mallarmeana página em branco que acolhe, relutante, aos primeiros sinais gráficos. Não se trata de uma poesia feita de antinomias (aristotélicas, cartesianas ou outras), mas antes matéria que mantém viva a memória da primitiva aliança entre logos e mythos, discurso articulado e imaginação ficcional, linguagem e universo fusional das imagens. Como mantém viva também a memória deste sacrifício arcaico (que tem, também ele, como cenário fundador o mar) que exige a morte da filha de Agamémnon e do próprio poeta para que os ventos voltem a soprar conduzindo o poema a bom porto.

É a esta consubstancialidade entre o mar e a escrita, declinada das mais variadas formas em função das épocas, dos géneros ou dos registos discursivos adotados, que o segundo volume do projeto antológico Imaginários do mar nos convida a regressar. O conceito de imaginário não deve ser aqui entendido de forma redutora
como pura fantasia, sonho ou ficção que teima em construir mundos alternativos à realidade ou mesmo em clara oposição com a realidade experienciada, documentada ou testemunhada, mais sim na sua qualidade de dinâmica estruturante que medeia e reconfigura incessantemente a relação do homem com o mundo através da gramática própria das imagens. Nesta perspetiva, torna-se um precioso conceito operativo para a exploração da literatura, quer esta assuma uma dimensão abertamente ficcional, quer assuma o registo documental do relato construído a partir da observação das realia que compõem o admirável universo marítimo.
Este segundo volume não podia deixar, neste sentido, de desenvolver uma reflexão sobre o estatuto oscilante e a natureza multiforme das narrativas marítimas que exploram os limiares entre o relato testemunhal (seja ele direto ou indireto, real ou simulado) e a criação assumidamente ficcional, experiência vivida e recomposição da e pela escrita na qual afloram incessantemente memórias literárias, ecos de práticas rituais, vestígios de mitos e lendas."

 

 

Referência bibliográfica: Carreto, Carlos F. Clamote; Martins, Luís (2021). Imaginários do mar: uma antologia crítica. Vol.II. Lisboa: IELT, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa, pp. 11-12

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