eBook | Imaginários do mar: uma antologia crítica. Vol. I
"(...) o projeto da presente antologia emergiu como susceptível de evidenciar as componentes fixas e variáveis de uma mitologia associada ao mar. Mas as questões que assim surgiram eram complexas, profundas como o oceano: de que forma o mar é designado nos mitos topográficos? Que características – formais, imagéticas ou enunciativas – testemunham a sua dimensão matricial e criadora nos mitos cosmogónicos e etiológicos?1 Como se organiza o mar, através de várias modalidades de representação, enquanto espaço fixo e móvel, em relatos de navegação, de ilhas, da sua dimensão iniciática e messiânica? Que rituais, crenças, lendas, provérbios e outras práticas culturais se ligam especificamente ao mar e à água, deixando transparecer a religiosidade associada às atividades marítimas, em ex votos, orações, procissões, cerimónias, bênçãos, amuletos e imagens sagradas? Será possível esboçar uma arqueologia simbólica do mar, a partir dos vários planos que nessa massa informe se sobrepõem, em relatos de naufrágios, tesouros subaquáticos, ilhas e cidades submersas? De que modo a experiência no mar – enquanto percurso ordenado e providencial ou enquanto errância marcada pela deriva, pela adversidade dos elementos e pelo espectro da morte – influencia as suas representações culturais?
Diante do mar – essa “catedral profunda” e “presença ondulada do infinito” de António Ramos Rosa (1990) –, não é o vazio que se abre, mas sim um espaço saturado de sentido(s), um universo de possíveis, onde cada elemento real ou imaginado – a fauna, a flora, os ventos, as cavernas, os afloramentos rochosos, os monstros e outras criaturas maravilhosas – é constantemente reinvestido de novas significações. Nesta perspectiva, importa também questionar de que forma os novos imaginários marítimos, como a exploração turística ou as abordagens eco económicas, colidem e urdem uma vivência do mar enquanto fonte de subsistência e espaço de resiliência, inclusive da própria tradição. Que espaço é esse afinal, onde, na fluidez do tempo e das águas, se cruzam petroleiros, naus, caravelas, cruzeiros, dóris, baleeiros, porta aviões, rebocadores, fragatas e veleiros, transportando sonhos, anseios e visões diferenciadas do mundo? Todas estas questões apontam mais para mapas e derivas possíveis do que para respostas e rumos concretos, no âmbito de um projeto como este."
Cruzando registos, fontes e metodologias provenientes de diversos territórios disciplinares das ciências sociais e humanas, a obra reúne – no espaço simultaneamente uno, heterogéneo e pluridimensional da antologia – documentos textuais e iconográficos, artes plásticas, vídeos, arquivos fotográficos e estudos críticos que visam mapear os elementos constitutivo de um imaginário marítimo atlântico entre a Idade Média e a época contemporânea."
Referência bibliográfica: Carreto, C., Gaspar de Freitas, J., Santos, C. M. L. S., & Martins, L. M. M. S. (2020). Imaginários do mar: uma antologia crítica. Lisboa: IELT, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa, p. 13


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